A moto mais roubada de SP não é a mais vendida

Por Verificar Auto 30/07/2026 às 12:09 8 min de leitura
A moto mais roubada de SP não é a mais vendida
8 min de leitura

A Honda CG 160 Fan lidera o ranking das motos mais roubadas em São Paulo, com 1.352 ocorrências no primeiro quadrimestre de 2026. Somando as três versões da CG 160, são 2.956 casos, cerca de um terço de tudo que foi registrado no estado.

A leitura fácil seria dizer que ela é a mais roubada por ser a mais vendida. Mas os números de emplacamento desmentem isso.

A Honda Biz vende quase metade do que a CG vende e é roubada 20 vezes menos.

Moto Honda CG Titan flex
Foto: Wikimedia Commons

O ranking completo

Os dados são do Centro de Estudos em Economia do Crime da FECAP, construídos sobre boletins de ocorrência da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, no comparativo entre o primeiro quadrimestre de 2026 e o mesmo período de 2025.

# Modelo 2026 2025 Variação
Honda CG 160 Fan 1.352 1.865 -27,5%
Honda CG 160 Titan 965 845 +14,2%
Honda CG 160 Start 639 734 -12,9%
Yamaha FZ25 Fazer 228 321 -29,0%
Honda CB300F Twister ABS 195 104 +87,5%
Mottu Sport 110i 180 87 +106,9%
Honda PCX 150 160 181 -11,6%
Honda Elite 125 128 126 +1,6%
Honda CG 150 Titan KS 109 129 -15,5%
10º Honda CG 160 Cargo 93 141 -34,0%

Na sequência aparecem Honda XRE 190 (90 casos), CB300F Twister CBS (87), Yamaha XTZ250 Lander (85), CG150 Fan ESDI (83) e Yamaha YBR150 Factor ED (81).

A queda que ninguém destacou

O ranking chama atenção, mas o dado mais relevante é o total: 9.007 ocorrências contra 11.187 no ano anterior, queda de 19,5%.

E a separação entre os dois crimes revela algo interessante.

  • Roubos (com violência): caíram 31,3%, de 3.043 para 2.090
  • Furtos (sem violência): caíram 15,1%, de 8.144 para 6.917

A queda muito mais acentuada no roubo sugere efeito de policiamento ostensivo. Já o furto, que é crime de oportunidade, resiste mais, porque depende menos de confronto e mais de descuido.

O movimento acompanha uma tendência estadual. Segundo a SSP-SP, os roubos de veículos no primeiro bimestre de 2026 caíram 39,9%, o menor patamar da série histórica iniciada em 2001. Entre 2016 e 2026, a redução acumulada chega a 54,8%.

“A redução consistente dos índices criminais em São Paulo é resultado direto de uma atuação firme e orientada por dados”, afirmou Osvaldo Nico Gonçalves, secretário de Segurança Pública.

O cruzamento que desmonta o senso comum

Aqui está a análise que nenhuma publicação fez, e ela muda a interpretação do ranking.

É verdade que modelo mais vendido tende a aparecer mais em estatística de roubo, por simples efeito de frota. Só que a comparação com emplacamentos mostra que isso não explica tudo.

Modelo Emplacamentos (1º sem/2026) Ocorrências
Honda CG 160 260.248 2.956 (3 versões)
Honda Biz 115.818 62
Honda Pop 110i 105.134 68

A Biz vende quase metade do volume da CG 160 e aparece apenas em 30º lugar no ranking de roubo. A Pop 110i, com volume semelhante, fica em 28º.

Se fosse só questão de frota, a proporção seria bem mais próxima. Não é. Existe seleção ativa por parte do crime.

Por que justamente esses modelos

A resposta está na economia do desmanche, e os números das operações policiais ajudam a entender.

Entre janeiro e novembro de 2025, o DEIC recuperou 463 veículos, prendeu 523 pessoas e apreendeu mais de 254 mil peças. Repare na proporção: são centenas de veículos contra centenas de milhares de peças.

O negócio é peça, não moto inteira.

Isso explica a preferência por modelos com alta demanda de reposição. A CG 160 tem a maior frota circulante do país, o que garante liquidez imediata para qualquer componente. Motor, chassi, rodas e plásticos saem rápido.

A Biz, apesar de popular, tem peças com menor giro no mercado paralelo.

Cuidado com as altas percentuais

Alguns números do levantamento parecem alarmantes e precisam de contexto.

A Honda POP 110i registrou alta de 580%, e a Yamaha XTZ 250 Lander, de 305,9%. Parece explosão, mas as bases eram de 10 e 17 casos respectivamente.

Variação percentual sobre base pequena é estatisticamente frágil. Sair de 10 para 68 casos é relevante, mas não indica que o modelo virou alvo prioritário.

Já a Mottu Sport 110i, com alta de 106,9%, tem explicação diferente e mais concreta: é moto de locação para entregadores, com frota crescendo rapidamente. Mais motos na rua, mais ocorrências.

Roubo e furto não são a mesma coisa

Os rankings somam as duas categorias, mas juridicamente elas são bem diferentes, e isso afeta você.

Crime Definição Pena
Roubo (art. 157 do CP) Subtração com violência ou grave ameaça 4 a 10 anos
Furto (art. 155 do CP) Subtração sem violência ou grave ameaça 1 a 4 anos

Na prática: se levaram sua moto enquanto ela estava estacionada, foi furto. Se abordaram você, foi roubo.

A distinção importa no boletim de ocorrência e pode afetar a cobertura contratada, já que algumas apólices tratam as situações de forma diferente.

Onde os crimes se concentram

As regiões com maior incidência em São Paulo são Sé e República, no centro, Santana, na zona norte, e Santo Amaro, na zona sul.

A concentração está “associada a fatores como o grande fluxo de veículos e a existência de rotas de fuga que facilitam a dispersão após o crime”, conforme apurou o Vrum.

Boa parte das abordagens acontece em paradas no trânsito, com o motociclista parado em semáforo ou congestionamento.

Como saber se uma moto usada é roubada

Este é o ponto mais prático do assunto, e o que nenhum concorrente desenvolveu.

Antes de comprar qualquer moto usada, faça a verificação nesta ordem.

  1. Consulte a placa e o chassi: a consulta oficial e gratuita é pelo Portal de Serviços da Senatran, no gov.br, por placa ou Renavam. Ela retorna restrições e indicadores do veículo
  2. Verifique restrição judicial: o Renajud é o sistema do CNJ que interliga o Judiciário à base da Senatran e registra bloqueios e incidências de roubo ou furto
  3. Confira a numeração física: compare o chassi gravado no quadro e o número do motor com o que consta no documento. Divergência é sinal de alerta imediato
  4. Peça laudo cautelar: ele detecta adulteração de chassi, passagem por leilão, sinistro, quilometragem alterada e restrições legais

Um alerta sobre serviços privados: sites que prometem “consulta Renajud” apenas cruzam dados públicos e não têm acesso direto ao sistema judicial. A fonte oficial é o portal do governo.

No dia a dia, consultar a placa do veículo e verificar o histórico veicular completo resolve a maior parte dos riscos antes de o dinheiro sair da conta.

O risco do chassi remarcado

Remarcação de chassi é legal em situações específicas, com laudo pericial, autorização do Detran e anotação no documento do veículo.

O problema é a remarcação irregular, usada para dar aparência lícita a moto de origem criminosa.

Quem compra nessa situação assume um risco pesado: apreensão do veículo, boletim de ocorrência e eventual inquérito, com necessidade de provar boa-fé. Na prática, é perda total do investimento, porque a moto retorna ao proprietário original ou à seguradora.

Entender o que é chassi remarcado e quando ele é legal evita esse tipo de armadilha, e a vistoria cautelar é o procedimento que detecta a fraude.

Como proteger a sua moto

Não existe solução única, mas a combinação de medidas reduz bastante o risco.

  • Rastreador: aumenta a chance de recuperação e costuma reduzir o valor do seguro
  • Travas físicas: trava de disco e corrente dificultam o furto de oportunidade, que é o crime mais comum
  • Estacionamento: prefira local fechado e monitorado, evitando deixar a moto na rua durante a noite
  • Comportamento no trânsito: atenção redobrada em paradas de semáforo nas regiões de maior incidência

Sobre seguro, uma ferramenta pouco conhecida ajuda: a Susep mantém o Índice de Veículos Roubados, que permite filtrar risco por categoria, região, ano-modelo e perfil do condutor. É a métrica de risco relativo que corrige o viés de frota.

Vale lembrar que o valor da apólice acompanha o preço de mercado do veículo, então conferir a tabela FIPE ajuda a saber se a cobertura contratada faz sentido.

Os dados completos do levantamento estão disponíveis no site da FECAP.

Uma limitação dos dados

Por transparência: não existe percentual público de recuperação específico de motos em São Paulo. Os números disponíveis são agregados de veículos em geral, como os 3.650 recuperados em janeiro de 2026.

O próprio CEEC reconhece que há subnotificação, já que nem toda ocorrência vira boletim registrado.

O ranking diz menos sobre qual moto evitar e mais sobre onde o mercado de peças roubadas está aquecido.

A CG 160 lidera porque tem a maior frota do país, e é essa mesma frota que faz dela a moto mais fácil de manter no Brasil. O motivo que a torna atraente para você é o que a torna atraente para o desmanche.