O Brasil virou o maior comprador de carros chineses do planeta. Entre janeiro e maio de 2026, o país importou US$ 5,2 bilhões em veículos vindos da China, segundo dados da alfândega chinesa compilados pelo AutoIndústria.
O número representa alta de 146,9% sobre os US$ 2,1 bilhões do mesmo período de 2025. Com isso, o Brasil ultrapassou a Rússia, que somou US$ 5 bilhões, e assumiu a liderança mundial.
Mas o salto tem uma explicação que quase ninguém contou. E ela tem data marcada no calendário.
O ranking mundial que o Brasil lidera
A escalada foi rápida. Em 2025, o país aparecia apenas em sexto lugar entre os destinos de veículos chineses. Em agosto daquele ano, o Vrum registrava o Brasil como quarto importador, atrás de México, Emirados Árabes e Rússia.
Menos de doze meses depois, o país está no topo.
| Posição | País | Valor importado (jan-mai/2026) |
|---|---|---|
| 1º | Brasil | US$ 5,2 bilhões |
| 2º | Rússia | US$ 5,0 bilhões |
| 3º | Bélgica | US$ 3,8 bilhões |
| 4º | Reino Unido | US$ 3,4 bilhões |
Convertido para a moeda local, o valor brasileiro passa de R$ 26,6 bilhões. É dinheiro suficiente para construir cinco fábricas do porte da que a BYD montou em Camaçari.
A corrida contra o imposto de 35%
Aqui está o ponto que explica quase tudo. Em 1º de julho de 2026, a alíquota de importação de veículos eletrificados subiu para 35% no Brasil.
O cronograma foi anunciado em novembro de 2023 e começou a valer em janeiro de 2024, com 12% para híbridos e 10% para elétricos puros. A recomposição foi gradual até chegar ao teto atual, que unifica híbridos convencionais, plug-in e elétricos a bateria na mesma faixa.
As montadoras sabiam da data. E agiram.
“As importações se intensificaram à medida que as empresas buscavam evitar a tarifa”, explicou Tulio Cariello, diretor de conteúdo e pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China, ao AutoIndústria.
O efeito aparece na distribuição mensal. Só entre abril e maio de 2026, o Brasil concentrou US$ 2,7 bilhões em importações, mais da metade de todo o valor do período de cinco meses.

Os eletrificados explicam a maior parte da conta
Não é qualquer carro chinês que chega por aqui. Dos US$ 5,2 bilhões, cerca de US$ 4,5 bilhões correspondem a veículos eletrificados.
A proporção mudou radicalmente em cinco anos. Em 2021, eletrificados respondiam por 33% do que o Brasil comprava da China no setor automotivo. Em 2025, já eram 87%.
Considerando o primeiro semestre completo de 2026, o valor sobe para US$ 5,35 bilhões, segundo levantamento do O Sul Fluminense. Desse total, US$ 2,79 bilhões vieram de híbridos plug-in e US$ 2 bilhões de elétricos puros, quatro vezes o registrado no primeiro semestre de 2025.
Para dimensionar: veículos eletrificados já representam cerca de 15% de tudo o que o Brasil importa da China, incluindo eletrônicos, máquinas e insumos industriais.
O mercado interno absorveu tudo
O volume não ficou parado em pátio. Os brasileiros emplacaram 215.023 veículos eletrificados leves no primeiro semestre de 2026, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico. São 125% a mais que os 95.493 do ano anterior.
Junho bateu recorde mensal isolado com 47.579 unidades. A média do semestre ficou em 35.837 emplacamentos por mês.
A participação desses veículos no mercado saltou de 7,7% em junho de 2025 para 18% em junho de 2026, conforme apurou a Gazeta do Povo. No acumulado do semestre, a fatia ficou em 16%.
Traduzindo: 16 de cada 100 carros vendidos no país já saem da loja com algum tipo de eletrificação. E enquanto o mercado total cresceu 20% no período, os eletrificados cresceram seis vezes mais.
Se você está avaliando entrar nesse mercado, vale entender antes as regras específicas que valem para elétricos e híbridos no Brasil, que ainda pegam muito comprador de surpresa.
Quais marcas chinesas dominam por aqui
Foram cerca de 140 mil emplacamentos de veículos chineses entre janeiro e junho de 2026. A participação de mercado dessas marcas saltou de 9,8% para 16,3% em fevereiro, com projeções que chegam a 20% ao fim do ano.
Quatro das vinte montadoras com maior fatia no Brasil já são chinesas: BYD, GWM, Omoda e Geely.
| Marca | Emplacamentos (1º sem/2026) | Variação |
|---|---|---|
| BYD | 99.029 | +107% |
| GWM | 35.218 | mais que o dobro |
| Geely (elétricos puros) | 16.125 | 2ª colocada no segmento |
No recorte de modelos, o GWM Haval H6 lidera com 20.142 unidades, seguido pelo BYD Song Pro com 17.776 e pelo Song Plus com 13.762. O Omoda 5 aparece em quarto, com 9.184.
Na primeira quinzena de julho, o Vrum registrou algo mais significativo: o BYD Dolphin Mini emplacou 3.075 unidades e ficou com 2,90% do mercado total, não apenas do segmento elétrico. O Geely EX2 entrou no top 10 geral com 2.408 unidades.
O Dolphin Mini deve ganhar uma versão de 129 cv no Brasil, o que reforça a aposta da BYD no modelo de entrada.

O paradoxo das fábricas nacionais
Aqui está a contradição que ninguém explicou direito. O recorde de importação aconteceu exatamente quando as fábricas chinesas em solo brasileiro começaram a operar.
A BYD investiu R$ 5,5 bilhões no complexo de Camaçari, na Bahia, no terreno que já foi da Ford. A meta é nacionalizar 50% da produção até 2027, embora as células de bateria sigam importadas.
A GWM ocupa em Iracemápolis, no interior paulista, a antiga planta da Mercedes-Benz. A capacidade atual é de 50 mil veículos por ano e a linha produz Haval H6, a picape Poer P30 e o Haval H9. O plano prevê R$ 6 bilhões de investimento entre 2027 e 2032, com produção elevada para 250 a 300 mil unidades anuais.
A explicação para o paradoxo está na exceção tarifária. Veículos que chegam desmontados, nos regimes CKD e SKD, e são finalizados nas fábricas brasileiras mantêm isenção dentro de uma cota que o governo renovou em 23 de junho de 2026, com teto de US$ 463 milhões até o fim do ano.
Ou seja: parte do que entrou como importação vai virar carro montado aqui.
O que muda no preço para quem vai comprar
A alíquota de 35% incide sobre o valor aduaneiro, não sobre o preço final de tabela. Ainda assim, o repasse é inevitável.
Um elétrico importado que custava R$ 200 mil tende a chegar perto de R$ 216 mil. Em SUVs premium na faixa dos R$ 300 mil, a estimativa de aumento fica entre R$ 20 mil e R$ 25 mil.
Existe uma janela, porém. Os veículos que desembarcaram antes de 1º de julho foram taxados pela alíquota antiga. Esse estoque ainda está nas concessionárias e foi comprado a preço velho.
Quem negocia agora pode encontrar condição melhor do que encontrará no fim do ano, quando o estoque pré-tarifa acabar. O detalhamento de como o imposto de 35% funciona na prática ajuda a entender o que perguntar no showroom.
A rede de assistência acompanhou o volume
Uma dúvida antiga sobre marca chinesa era a estrutura pós-venda. O cenário mudou: hoje são 1.360 concessionárias de veículos chineses espalhadas pelo Brasil, conforme levantamento do AutoIndústria.
O ponto de atenção migrou para outro lugar. Com marcas novas chegando quase todo mês, a curva de depreciação desses modelos ainda é uma incógnita no mercado de seminovos.
Antes de fechar negócio com um chinês usado, consultar a tabela FIPE do modelo e verificar o histórico veicular completo deixou de ser recomendação e virou obrigação. Vale o mesmo raciocínio de quem avalia comprar um elétrico usado.
Dados oficiais de emplacamentos e participação de mercado podem ser conferidos no portal da Associação Brasileira do Veículo Elétrico.
O que esperar do segundo semestre
A antecipação de embarques criou uma distorção que vai aparecer nos números dos próximos meses. Com o estoque pré-tarifa já em território nacional, a tendência é de queda nas importações do segundo semestre.
Isso não significa recuo nas vendas. Significa que a conta migra do porto para a linha de montagem, com Camaçari e Iracemápolis assumindo parte do volume que antes vinha em navio.
A liderança mundial conquistada em 2026 pode ser recorde de uma temporada só. O que dificilmente volta atrás é a fatia de mercado.
Hoje 16 em cada 100 carros vendidos já são eletrificados, e a maioria tem sotaque chinês. A pergunta não é mais se essas marcas vão ficar, e sim quantas das tradicionais ainda estarão no ranking daqui a cinco anos.