A Omoda & Jaecoo confirmou o que era o pior pesadelo da Jaguar Land Rover no Brasil: vai assumir a fábrica da JLR em Itatiaia (RJ) ainda em 2026. A planta deixa de produzir Discovery Sport e Range Rover Evoque em julho e passa, na sequência, a montar carros chineses voltados ao consumidor brasileiro de massa.
O anúncio da virada veio dias depois de um marco histórico: a marca atingiu 1 milhão de unidades vendidas globalmente em apenas três anos, recorde mundial entre montadoras recentes. A celebração aconteceu no Salão de Pequim, em 24 de abril, no mesmo evento em que o Omoda 4 — primeiro modelo nacional — foi apresentado oficialmente.
Para o Brasil, a notícia muda o jogo. O país já está entre os seis maiores mercados da Omoda & Jaecoo, com 2 mil unidades emplacadas por mês. A meta é triplicar para 3 mil/mês ainda em 2026 — e produzir aqui dentro, sem tarifa de importação, é o que torna isso plausível.

Ficha rápida
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Recorde global | 1 milhão de unidades em 3 anos (abr/2026) |
| Mercados ativos | 69 países, 1.364 concessionárias |
| Fábrica no Brasil | Itatiaia (RJ) — antiga planta da JLR |
| Capacidade atual | 24 mil veículos/ano |
| Capacidade projetada | ~100 mil veículos/ano |
| Início da produção | 2º semestre de 2026 |
| Primeiro modelo nacional | Omoda 4 (4º trimestre de 2026) |
| Rede atual no Brasil | 70 lojas, meta de 110 até dez/2026 |
1 milhão de unidades em três anos: o recorde da Omoda & Jaecoo
A marca foi lançada em 2022 como divisão internacional da Chery. Três anos depois, virou o caso mais rápido de chegada à marca de 1 milhão na história das montadoras chinesas. Em comparação, BYD e Great Wall levaram décadas para o mesmo feito.
A Europa puxou o ritmo. Em março de 2026, a região respondeu por 41,5% das vendas globais, com alta de 246% sobre o mesmo mês do ano anterior. Espanha, Itália e Reino Unido lideram a procura, especialmente pelo Omoda 5 híbrido.
O Brasil entrou no radar em 2024 e cresceu rápido. Hoje é top 6 mundial em volume — à frente de mercados maduros como Alemanha e França. O segredo: SUV chinês com preço competitivo num país que adora utilitário esportivo.
Itatiaia (RJ): a fábrica que era da Jaguar Land Rover
A planta foi inaugurada pela JLR em 2016, com capacidade para 24 mil veículos/ano. Nunca operou perto desse teto. Em 2025, emplacou apenas 425 unidades do Discovery Sport e 332 do Range Rover Evoque — menos de 4% da capacidade.
A montagem nacional encerra em julho de 2026. Daí em diante, a Omoda & Jaecoo assume o controle. As negociações estão “muito bem encaminhadas”, segundo Roger Corassa, vice-presidente da marca no Brasil. A transição já vinha sendo costurada há meses.
O plano é ambicioso: ampliar a capacidade para cerca de 100 mil veículos/ano, com 87 mil vagas de produção já garantidas pela Chery. É quatro vezes o que a JLR fazia — e dá fôlego para a Omoda & Jaecoo brigar de igual com Toyota, Honda e Hyundai no segmento de SUV médio.

Omoda 4, Jaecoo 5 e a nova faixa abaixo de R$ 140 mil
O primeiro modelo brasileiro será o Omoda 4, apresentado no Salão de Pequim. Vem com motor 1.0 turbo flex e versão híbrida HEV, mira preço abaixo de R$ 130 mil — um patamar até hoje dominado por Volkswagen Polo Track e Fiat Argo.
Em sequência, deve aparecer o Jaecoo 5, SUV compacto com preço estimado em torno de R$ 155 mil. Estão em estudo também o Omoda 2 e o Jaecoo 3, que seriam ainda mais acessíveis — abaixo de R$ 120 mil. Se confirmados, abrem uma faixa que praticamente não existe em SUV chinês hoje.
Os modelos atuais — Omoda 5 (R$ 160 mil) e Jaecoo 7 — seguem importados por enquanto. A nacionalização gradual deve começar pelos veículos mais novos do portfólio. A Chery não confirmou ainda se o Tiggo 7 ou Tiggo 8 vão também migrar para a planta de Itatiaia.
O que muda para o consumidor brasileiro
Produção nacional significa três coisas: preço menor, prazo de entrega mais curto e rede de pós-venda mais robusta. Sem o imposto de importação de 18% e sem o frete transoceânico, um SUV híbrido como o Omoda 5 pode cair facilmente R$ 15 mil a R$ 20 mil.
Também muda a confiança. A nacionalização cria empregos, fortalece a cadeia de fornecedores e ataca a desconfiança que ainda existe contra marcas chinesas premium. Quem tem medo de comprar carro importado de país distante ganha um argumento a mais para repensar.
O efeito colateral é a pressão sobre as rivais. Toyota Corolla Cross, Honda HR-V e Hyundai Creta vão ter que reagir — seja em preço, seja em conteúdo. O duelo entre SUVs híbridos chineses ganhou um terceiro nome de peso.
A JLR, por outro lado, sai do Brasil de cabeça baixa. Volta a importar Discovery Sport e Range Rover Evoque do Reino Unido e da Eslováquia, e perde a vantagem fiscal que teve por uma década. O fim de Itatiaia marca o começo de uma nova era automotiva no país — e ela é, definitivamente, chinesa.

