Salão de Pequim 2026: BYD, GWM, Chery e Geely confirmam invasão no Brasil

8 min de leitura
Salão de Pequim 2026: BYD Sealion 08 com 643 cv
Foto: divulgação BYD

O Salão de Pequim 2026 entrou para a história como o maior evento automotivo já realizado. Foram 380 mil m², 1.451 veículos expostos, 181 estreias mundiais e 71 conceitos em 11 dias de feira, entre 24 de abril e 3 de maio.

Mais do que números, a edição marcou uma virada estratégica. A China decretou o fim da guerra de preços entre fabricantes locais. Pequim baniu a venda de carros abaixo do custo total, e o presidente Xi Jinping pediu publicamente racionalidade às montadoras.

Para o Brasil, isso muda tudo. BYD, GWM, Chery (com Caoa), Geely e Leapmotor usaram o salão para confirmar uma enxurrada de lançamentos em 2026 — agora com foco em alto valor agregado, SUVs grandes e tecnologia premium.

Auto China 2026 em números: o maior evento automotivo da história

Os números organizados pela AutoData dão a dimensão. Foram 1.451 veículos, 181 estreias mundiais, 71 conceitos e 212 coletivas de imprensa.

O salão ocupou 380 mil m² no centro de exposições de Shunyi. Para comparar: o Salão do Automóvel de São Paulo, na sua melhor edição, ocupou cerca de 80 mil m². A IAA Mobility, em Munique, usa em torno de 200 mil m².

O recado foi claro. As montadoras chinesas montaram estandes voltados para imprensa internacional, com material em inglês e executivos prontos para falar de exportação. O Brasil é um dos alvos prioritários.

GWM Tank 700 Hi4-Z PHEV no Salão de Pequim 2026
Foto: divulgação GWM

Pequim baniu carros vendidos abaixo do custo: o que muda

A guerra de preços chegou a níveis insustentáveis em 2025. Modelos elétricos populares foram vendidos por menos de US$ 10 mil, fabricantes pequenos quebraram em série e a margem das gigantes despencou.

O governo chinês interveio. Como mostrou o Observador, Pequim proibiu formalmente a venda abaixo do custo total de produção. As vendas de ligeiros caíram 14% no início de 2026, e o segmento de novas energias recuou 20%.

O preço médio de um carro novo na China, em 2025, ficou em US$ 24 mil — queda de 7% sobre 2024. Esse foi o piso. Para o Brasil, o efeito é direto: as marcas chinesas pararam de empurrar elétricos baratos e passaram a vender SUVs grandes, plug-in com autonomia generosa e cabines premium.

BYD, GWM, Chery e Geely: o que vem para o Brasil em 2026

Cinco grupos chineses confirmaram, em Pequim, modelos específicos para o mercado brasileiro.

A BYD apresentou o Sealion 08, SUV híbrido plug-in de 643 cv, 900 km de autonomia, plataforma 800V e recarga em 9 minutos. Junto, mostrou o Great Tang, com 784 cv e 950 km de autonomia. Ambos vêm para o Brasil. A marca também vai instalar mil carregadores ultrarrápidos no país até 2027.

A GWM confirmou 12 lançamentos em 2026. As estrelas foram o Tank 700 Hi4-Z PHEV, com 864 cv e 0 a 100 km/h em 5,6 segundos, e o sedã premium Wey G9. O Tank 300 PHEV flex 2027 também já está confirmado.

A Chery, via Omoda & Jaecoo, mostrou o Omoda 4 com cyber mecha design, abaixo de R$ 140 mil, e o Jaecoo 5, na faixa de R$ 160 mil. A Caoa Chery trouxe o Tiggo 9 e o Arrizo 8 Hybrid PHEV. A Lepas, quinta marca da Chery, também chega ao Brasil em 2026.

A Geely exibiu o EX5 EM-i — primeiro híbrido plug-in nacional da marca, produzido via Renault no Paraná — e o EX2. Já temos um comparativo entre EX5 EM-i e BYD Song Pro. A Leapmotor, do grupo Stellantis, confirmou o C10 REEV e o B10, produzidos em Goiana, Pernambuco.

Tabela: marcas chinesas em Pequim 2026 e chegada ao Brasil

Marca Modelo destaque Tecnologia Chegada Brasil
BYD Sealion 08 PHEV 643 cv, 900 km, 800V 2º sem 2026
GWM Tank 700 Hi4-Z PHEV 864 cv, 190 km elétrico 2º sem 2026
Chery (Omoda Jaecoo) Omoda 4 Híbrido, AI Cabin, < R$ 140 mil 1º sem 2026
Caoa Chery Tiggo 9 PHEV SUV grande, > R$ 320 mil 2º sem 2026
Geely EX5 EM-i PHEV nacional, fábrica PR 1º sem 2026
Leapmotor C10 REEV Extensor, fábrica PE 2º sem 2026
BYD Sealion 08 visto de perfil no Salão de Pequim 2026
Foto: divulgação BYD

SUVs grandes e EREV: as tendências que mudam o jogo

Três padrões se repetiram nos corredores de Shunyi. SUVs com mais de 5 metros substituíram os hatches baratos como produto de entrada. O veículo de zero emissões puro perdeu espaço para o EREV, o elétrico com extensor de autonomia.

As plataformas 800V e a recarga em menos de 10 minutos viraram padrão, não diferencial premium. Cabines com IA rodando HarmonyOS da Huawei ocuparam quase todos os estandes. Direção autônoma nível 4 e robotáxis prontos de fábrica também marcaram presença, com a Xpeng GX em destaque.

Marcas europeias e japonesas — Audi E7X, Toyota bZ3X, Smart, Nissan — desenvolveram modelos exclusivos para a China, o que era impensável há cinco anos. Dos cerca de 100 fabricantes de elétricos chineses, a maioria não vai sobreviver à consolidação.

O impacto no consumidor brasileiro

Para quem pensa em trocar de carro nos próximos dois anos, o cenário é positivo. As marcas chinesas vão chegar com produto melhor. O foco em alto valor agregado significa ADAS 2.5, telas grandes, cabines premium e powertrains sofisticados — o que pressiona Toyota, Volkswagen, Hyundai e GM.

A Omoda & Jaecoo já assumiu a antiga fábrica da Jaguar Land Rover no Brasil. A Geely fabrica via Renault no Paraná, a Leapmotor via Stellantis em Pernambuco. Produção local muda o jogo de imposto e prazo de entrega.

O preço médio do segmento intermediário deve subir um pouco — a era do elétrico chinês a R$ 100 mil acabou. Em compensação, o pacote de tecnologia em torno de R$ 150 mil é, sem exagero, o melhor que o consumidor brasileiro já viu. Antes de comprar qualquer veículo, vale consultar dados pela placa e dominar termos como tração 4×4.

O Salão de Pequim 2026 deixou claro: a China deixou de ser o destino dos carros baratos. Virou o laboratório do que vai rodar nas ruas brasileiras nos próximos dez anos.

Compartilhar este artigo