O Salão de Pequim 2026 entrou para a história como o maior evento automotivo já realizado. Foram 380 mil m², 1.451 veículos expostos, 181 estreias mundiais e 71 conceitos em 11 dias de feira, entre 24 de abril e 3 de maio.
Mais do que números, a edição marcou uma virada estratégica. A China decretou o fim da guerra de preços entre fabricantes locais. Pequim baniu a venda de carros abaixo do custo total, e o presidente Xi Jinping pediu publicamente racionalidade às montadoras.
Para o Brasil, isso muda tudo. BYD, GWM, Chery (com Caoa), Geely e Leapmotor usaram o salão para confirmar uma enxurrada de lançamentos em 2026 — agora com foco em alto valor agregado, SUVs grandes e tecnologia premium.
Auto China 2026 em números: o maior evento automotivo da história
Os números organizados pela AutoData dão a dimensão. Foram 1.451 veículos, 181 estreias mundiais, 71 conceitos e 212 coletivas de imprensa.
O salão ocupou 380 mil m² no centro de exposições de Shunyi. Para comparar: o Salão do Automóvel de São Paulo, na sua melhor edição, ocupou cerca de 80 mil m². A IAA Mobility, em Munique, usa em torno de 200 mil m².
O recado foi claro. As montadoras chinesas montaram estandes voltados para imprensa internacional, com material em inglês e executivos prontos para falar de exportação. O Brasil é um dos alvos prioritários.

Pequim baniu carros vendidos abaixo do custo: o que muda
A guerra de preços chegou a níveis insustentáveis em 2025. Modelos elétricos populares foram vendidos por menos de US$ 10 mil, fabricantes pequenos quebraram em série e a margem das gigantes despencou.
O governo chinês interveio. Como mostrou o Observador, Pequim proibiu formalmente a venda abaixo do custo total de produção. As vendas de ligeiros caíram 14% no início de 2026, e o segmento de novas energias recuou 20%.
O preço médio de um carro novo na China, em 2025, ficou em US$ 24 mil — queda de 7% sobre 2024. Esse foi o piso. Para o Brasil, o efeito é direto: as marcas chinesas pararam de empurrar elétricos baratos e passaram a vender SUVs grandes, plug-in com autonomia generosa e cabines premium.
BYD, GWM, Chery e Geely: o que vem para o Brasil em 2026
Cinco grupos chineses confirmaram, em Pequim, modelos específicos para o mercado brasileiro.
A BYD apresentou o Sealion 08, SUV híbrido plug-in de 643 cv, 900 km de autonomia, plataforma 800V e recarga em 9 minutos. Junto, mostrou o Great Tang, com 784 cv e 950 km de autonomia. Ambos vêm para o Brasil. A marca também vai instalar mil carregadores ultrarrápidos no país até 2027.
A GWM confirmou 12 lançamentos em 2026. As estrelas foram o Tank 700 Hi4-Z PHEV, com 864 cv e 0 a 100 km/h em 5,6 segundos, e o sedã premium Wey G9. O Tank 300 PHEV flex 2027 também já está confirmado.
A Chery, via Omoda & Jaecoo, mostrou o Omoda 4 com cyber mecha design, abaixo de R$ 140 mil, e o Jaecoo 5, na faixa de R$ 160 mil. A Caoa Chery trouxe o Tiggo 9 e o Arrizo 8 Hybrid PHEV. A Lepas, quinta marca da Chery, também chega ao Brasil em 2026.
A Geely exibiu o EX5 EM-i — primeiro híbrido plug-in nacional da marca, produzido via Renault no Paraná — e o EX2. Já temos um comparativo entre EX5 EM-i e BYD Song Pro. A Leapmotor, do grupo Stellantis, confirmou o C10 REEV e o B10, produzidos em Goiana, Pernambuco.
Tabela: marcas chinesas em Pequim 2026 e chegada ao Brasil
| Marca | Modelo destaque | Tecnologia | Chegada Brasil |
|---|---|---|---|
| BYD | Sealion 08 PHEV | 643 cv, 900 km, 800V | 2º sem 2026 |
| GWM | Tank 700 Hi4-Z PHEV | 864 cv, 190 km elétrico | 2º sem 2026 |
| Chery (Omoda Jaecoo) | Omoda 4 | Híbrido, AI Cabin, < R$ 140 mil | 1º sem 2026 |
| Caoa Chery | Tiggo 9 PHEV | SUV grande, > R$ 320 mil | 2º sem 2026 |
| Geely | EX5 EM-i | PHEV nacional, fábrica PR | 1º sem 2026 |
| Leapmotor | C10 REEV | Extensor, fábrica PE | 2º sem 2026 |

SUVs grandes e EREV: as tendências que mudam o jogo
Três padrões se repetiram nos corredores de Shunyi. SUVs com mais de 5 metros substituíram os hatches baratos como produto de entrada. O veículo de zero emissões puro perdeu espaço para o EREV, o elétrico com extensor de autonomia.
As plataformas 800V e a recarga em menos de 10 minutos viraram padrão, não diferencial premium. Cabines com IA rodando HarmonyOS da Huawei ocuparam quase todos os estandes. Direção autônoma nível 4 e robotáxis prontos de fábrica também marcaram presença, com a Xpeng GX em destaque.
Marcas europeias e japonesas — Audi E7X, Toyota bZ3X, Smart, Nissan — desenvolveram modelos exclusivos para a China, o que era impensável há cinco anos. Dos cerca de 100 fabricantes de elétricos chineses, a maioria não vai sobreviver à consolidação.
O impacto no consumidor brasileiro
Para quem pensa em trocar de carro nos próximos dois anos, o cenário é positivo. As marcas chinesas vão chegar com produto melhor. O foco em alto valor agregado significa ADAS 2.5, telas grandes, cabines premium e powertrains sofisticados — o que pressiona Toyota, Volkswagen, Hyundai e GM.
A Omoda & Jaecoo já assumiu a antiga fábrica da Jaguar Land Rover no Brasil. A Geely fabrica via Renault no Paraná, a Leapmotor via Stellantis em Pernambuco. Produção local muda o jogo de imposto e prazo de entrega.
O preço médio do segmento intermediário deve subir um pouco — a era do elétrico chinês a R$ 100 mil acabou. Em compensação, o pacote de tecnologia em torno de R$ 150 mil é, sem exagero, o melhor que o consumidor brasileiro já viu. Antes de comprar qualquer veículo, vale consultar dados pela placa e dominar termos como tração 4×4.
O Salão de Pequim 2026 deixou claro: a China deixou de ser o destino dos carros baratos. Virou o laboratório do que vai rodar nas ruas brasileiras nos próximos dez anos.
