A Jetour F700 PHEV apareceu na China com dois números que parecem de ficção: 71,9 km/l no ciclo local e recarga de 20% a 80% em cerca de 10 minutos. Para o leitor brasileiro, o trabalho é outro: filtrar o que é dado de homologação e o que poderia virar uso real.
Os números impressionam. Mas pedem calma.
Números de hipercarro, porte de Ram
A F700 PHEV é uma picape híbrida plug-in da Jetour, marca do grupo Chery. Não é Hilux chinesa. Pelo porte, ela pisa mais perto do território de Ram 1500 do que das médias tradicionais.
São cerca de 5,49 metros de comprimento, 2,05 m de largura e 3,35 m de entre-eixos. O peso passa de 3.000 kg. Grande de verdade.
Debaixo da carroceria, a proposta é quase um laboratório sobre rodas. A base junta motor 2.0 turbo a gasolina, quatro motores elétricos e arquitetura de 800 V.

O dado mais chamativo é a potência combinada de cerca de 1.631 cv. Sim, numa picape. Com um motor elétrico por roda, ela também sugere vetorização de torque, algo útil no fora de estrada e exagerado para quem só vai ao shopping.
Tem mais: a transmissão usa sistema híbrido DHT de duas marchas, e a bateria é do tipo LFP fornecida pela CATL. Em tese, isso ajuda em eficiência térmica, recarga rápida e durabilidade. Em tese.
| Ficha técnica | Jetour F700 PHEV |
|---|---|
| Marca / grupo | Jetour / Chery |
| Tipo | Picape híbrida plug-in |
| Motor a combustão | 2.0 turbo a gasolina, cerca de 210 cv |
| Motores elétricos | Quatro, um por roda |
| Potência combinada | Cerca de 1.631 cv |
| Transmissão | DHT de duas marchas |
| Arquitetura elétrica | 800 V |
| Bateria | LFP da CATL |
| Recarga DC | 20% a 80% em cerca de 10 minutos |
| Consumo declarado | 71,9 km/l no ciclo chinês |
| Comprimento | Cerca de 5,49 m |
| Largura | Cerca de 2,05 m |
| Altura | Cerca de 1,98 m |
| Entre-eixos | Cerca de 3,35 m |
| Peso | Acima de 3.000 kg |
| Produção em série | Prevista para 2026 |
| Mercado inicial | China |
| Status no Brasil | Sem confirmação oficial |
O 71,9 km/l precisa de tradução
Esse é o número que vai rodar rede social. Só que ele vem de ciclo de homologação chinês, muito favorecido pelo uso elétrico e por condições controladas. Não é número para ler como consumo real no Brasil.
Em picape PHEV, km/l isolado engana fácil. Se a bateria começa cheia, o teste tende a jogar o resultado lá para cima. Sem autonomia elétrica pura e sem capacidade da bateria em kWh, a conta fica incompleta.
Compensa levar a sério? Sim, mas com a régua certa.
O dado realmente interessante é outro: a recarga declarada de 20% a 80% em 10 minutos. A arquitetura de 800 V ajuda muito nisso, porque trabalha com maior eficiência e melhor controle térmico em carga pesada.
Só que existe um detalhe brasileiro. Para chegar perto desse tempo, a picape dependeria de carregador DC ultrarrápido compatível. Fora de capitais e alguns corredores rodoviários, isso ainda é exceção.

Traduzindo para a vida real: se vier ao Brasil, ela pode carregar muito rápido em pontos certos. No uso comum, com infraestrutura irregular, o cenário muda bastante.
Mais vitrine tecnológica que picape de trabalho
Vamos ser francos. Uma picape com mais de 3 toneladas, quase 5,5 metros e potência de superesportivo fala mais de imagem do que de fazenda.
Falta o básico do mundo das picapes: capacidade de carga, reboque e volume da caçamba. Sem isso, ela ainda parece mais um cartão de visitas da indústria chinesa do que ferramenta para puxar carreta ou encarar rotina pesada.
Isso não desmerece o projeto. Pelo contrário. Mostra como as marcas chinesas estão entrando num território que antes era das americanas e de poucas japonesas: picape grande, cara, tecnológica e cheia de ego.
Se um dia pisar aqui, vai encarar um funil
A produção em série está prevista para 2026, com foco inicial na China. Até agora, não existe confirmação oficial de venda no Brasil.
No site global da Jetour, a marca ainda não trata a F700 PHEV como produto brasileiro. Se ela cruzar o oceano, precisará de homologação local, ajuste para nossas regras e uma rede de assistência que aguente um produto desse nível.
E o preço? Oficialmente, nada foi divulgado. Pela proposta e pela importação, a conta do mercado aponta para algo acima de R$ 500 mil.
Nessa faixa, a disputa deixa de ser com Hilux, S10 e Amarok convencionais. A conversa muda para modelos de imagem forte, como Ram 1500, Ford Ranger Raptor e as novas picapes eletrificadas chinesas.
| Modelo | Como entra na comparação | Leitura para o Brasil |
|---|---|---|
| Ram 1500 | Porte grande e apelo premium | Referência de imagem e presença |
| Ford Ranger Raptor | Desempenho e proposta off-road | Rival por público entusiasta |
| BYD Shark | Eletrificação e origem chinesa | Comparativo mais natural por tecnologia |
| GWM Poer PHEV | Picape híbrida plug-in | Mostra a mesma tendência de mercado |

A China subiu o tom nas picapes
A F700 PHEV não é importante só pelo exagero da ficha técnica. Ela mostra uma direção clara: picapes chinesas estão deixando de copiar receita conservadora e partindo para eletrificação pesada, luxo e desempenho absurdo.
Funciona no marketing. Falta ver se funciona no caixa.
Porque uma coisa é anunciar recarga em 10 minutos e consumo de 71,9 km/l no papel. Outra, bem diferente, é convencer o brasileiro a pagar mais de R$ 500 mil numa marca sem histórico local forte, sem autonomia elétrica divulgada e com a infraestrutura de recarga ainda andando em ritmo mais lento do que a própria picape.
