Semáforo com IA já muda o trânsito em São Paulo

Por Verificar Auto 29/07/2026 às 19:48 8 min de leitura
Semáforo com IA já muda o trânsito em São Paulo
8 min de leitura

São Paulo já tem 1.677 cruzamentos com semáforo inteligente. Nas regiões atendidas, a lentidão caiu 12,16% e a capacidade das vias subiu 5,72%, segundo a Prefeitura.

Em algumas avenidas o resultado foi bem mais expressivo. Na Indianópolis, na Zona Sul, a lentidão recuou 66,2% mesmo com 5% mais carros circulando.

Só que a dúvida que mais aparece nas buscas ninguém respondeu: se a inteligência artificial controla o tempo do sinal, ela pode encurtar o amarelo e te fazer levar multa?

Veículo em via urbana
Foto: Wikimedia Commons

O que é um semáforo inteligente

É um semáforo cujo tempo de verde muda conforme o fluxo real de veículos, medido naquele instante. Ele não segue uma programação fixa gravada no controlador.

Em São Paulo, câmeras instaladas em cada lado do cruzamento contam veículos por sentido. O sistema processa esses dados e redistribui o tempo, dando mais verde a quem tem mais fila.

A tecnologia usada é o SCATS, sigla de Sydney Coordinated Adaptive Traffic System.

A hierarquia que quase ninguém explica

Chamar tudo de “semáforo inteligente” esconde quatro níveis diferentes de tecnologia. O Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito prevê as seguintes estratégias de controle:

  1. Tempo fixo: a programação é definida em gabinete e repetida sempre igual, com planos diferentes por faixa horária. É o mais comum no Brasil
  2. Semi-atuado: só a via secundária tem detector. O verde da principal só é interrompido quando alguém aparece na transversal
  3. Totalmente atuado: todas as aproximações têm detector, e o tempo de cada fase responde à demanda de cada uma
  4. Adaptativo em tempo real: o algoritmo otimiza o cruzamento considerando os vizinhos, prevendo a chegada de pelotões de veículos. É o SCATS

A diferença entre o terceiro e o quarto nível é a coordenação. Um semáforo atuado resolve o cruzamento dele; um adaptativo resolve o corredor.

Como o SCATS lê o trânsito

O sistema trabalha por sub-áreas. Dentro de um agrupamento de cruzamentos, um semáforo é definido como dominante e influencia a temporização dos vizinhos.

A detecção clássica do SCATS usa laços indutivos instalados sob o asfalto. Eles funcionam por indução eletromagnética: a massa metálica do veículo altera o campo do laço e o sistema registra a passagem.

Em São Paulo, a leitura é feita principalmente por câmeras.

Vale registrar que o SCATS não é experimento. A tecnologia é australiana, existe desde os anos 1970 e roda em 32 países, 216 cidades e 63 mil cruzamentos. O Brasil chegou tarde nessa festa.

O equivalente britânico chama-se SCOOT e opera em Londres. Estudos de campo mostram que ambos superam o tempo fixo em tempo de viagem e número de paradas.

A trava humana que impede a IA de errar

Esse é o ponto que responde ao medo mais comum, e só uma publicação abordou.

Os tempos mínimos e máximos de verde não são decididos pelo algoritmo. Eles são definidos por técnicos da CET e funcionam como limites rígidos.

“Os parâmetros de tempos mínimos e máximos de abertura são definidos sempre por alguém da própria companhia, o que impede que um semáforo tenha uma abertura muito pequena baseada apenas na percepção da inteligência artificial”, explicou a CET-SP ao Metrópoles.

Há ainda monitoramento humano em tempo real no Centro de Controle da companhia, e agentes de rua podem acionar a central quando percebem comportamento estranho.

O amarelo pode encurtar e gerar multa?

Resposta direta: não.

A Resolução CONTRAN nº 973/2022, que aprovou o Volume V do Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito, fixa piso e teto para o tempo de amarelo. São no mínimo 3 segundos e no máximo 5, escalonados pela velocidade da via.

Velocidade da via Tempo mínimo de amarelo
Até 40 km/h 3 segundos
50 a 60 km/h 4 segundos
70 km/h 5 segundos

O que o sistema adaptativo ajusta é a duração do verde e o entreverde entre mudanças de estágio, sempre respeitando esses mínimos.

Outro esclarecimento importante sobre a norma: passar no amarelo não é infração. O manual determina que “o condutor deve parar o veículo, salvo se não for possível imobilizá-lo em condições de segurança”.

A autuação existe para o sinal vermelho. Avançar o vermelho é infração gravíssima pelo artigo 208 do Código de Trânsito Brasileiro, com multa de R$ 293,47 e 7 pontos na CNH.

Essa é uma das infrações de trânsito mais comuns no país, e vale conhecer os detalhes em multas por avançar o farol vermelho.

Se você foi autuado e discorda, vale saber o que realmente derruba uma autuação de trânsito.

Como ele conversa com o radar de avanço de sinal

Essa dúvida não tem resposta em nenhuma matéria, e é legítima: se o tempo do semáforo muda, o radar no mesmo cruzamento sabe disso?

Sim. O equipamento de fiscalização eletrônica é sincronizado com o controlador semafórico e registra a infração pela fase efetivamente vigente, não por uma tabela fixa.

Ou seja, o radar dispara quando o vermelho está aceso naquele instante, independentemente de o verde anterior ter durado 30 ou 70 segundos.

A fiscalização por imagem tem avançado em outras frentes também. Em São Paulo, radares com inteligência artificial já geram multas, e em Minas Gerais 210 radares inteligentes leem placas nas rodovias.

O pedestre não entra na conta da IA

Aqui vai um alívio para quem atravessa a pé: o tempo de travessia é fixo e não é reduzido pelo volume de carros.

O algoritmo redistribui o verde entre as vias de veículos, mas não comprime a fase de pedestre para acelerar o tráfego.

Existem projetos que vão na direção oposta, usando a tecnologia a favor de quem caminha. Pesquisadores da USP desenvolveram um semáforo que detecta se a travessia já foi concluída e reduz a espera dos carros. Curitiba adotou IA com foco declarado em segurança de travessia, não apenas em fluidez.

Os números do programa paulistano

Indicador Valor
Cruzamentos em operação 1.677
Em fase final de implantação 217
Com projeto executivo aprovado 689
Meta total do programa 2.583
Investimento desde 2023 R$ 725,5 milhões
Redução da lentidão 12,16%
Ganho de capacidade viária 5,72%

Nas zonas Sudeste e Leste os resultados foram melhores que a média: queda de 26,04% na lentidão e alta de 12,05% na capacidade de circulação.

Na Avenida Paes de Barros, a lentidão caiu 57,1%. A concentração maior de cruzamentos está nas subprefeituras da Sé, Vila Mariana, Pinheiros, Lapa, Ipiranga, Mooca e Santo Amaro.

O fornecedor é a Ilumina SP, por meio de aditamento de parceria público-privada.

Um esclarecimento sobre números divergentes: a Prefeitura fala em 1.677 cruzamentos, enquanto uma reportagem citou 105 em modernização e 51 operantes. São recortes diferentes, um do universo total do programa e outro de um lote específico de obras.

As críticas ao programa

Nem tudo é resultado positivo, e vale o contraponto.

A Zona Norte de São Paulo não teve nenhum cruzamento contemplado até a apuração, o que levanta questão de distribuição territorial do investimento.

As reclamações sobre tempo semafórico no portal 156 também se mantiveram praticamente estáveis: foram 1.371 no primeiro semestre, contra 1.498 no mesmo período do ano anterior. A queda existe, mas é modesta para um investimento de R$ 725,5 milhões.

Se você identificar tempo semafórico mal calibrado, o canal 156 é a via oficial de reclamação, e é justamente essa base de dados que a CET usa para revisar programações.

O que muda no volante

Nada muda na conduta legal. Você continua parando no vermelho e respeitando a sinalização.

O que muda é o que o sistema recompensa. Velocidade constante aproveita a onda verde; acelerar entre cruzamentos para “ganhar” o próximo sinal deixa de funcionar, porque a coordenação é calculada para um fluxo regular.

Dirigir de forma mais uniforme passa a ser vantagem prática, e ainda ajuda no consumo. Existem outros hábitos que cortam gastos no trânsito na mesma linha.

Outras capitais na fila

Belo Horizonte anunciou a instalação de 1,5 mil semáforos com inteligência artificial, com previsão de início em agosto. O sistema também promete leitura do trânsito em tempo real e sincronismo de centenas de cruzamentos.

Curitiba já opera com a tecnologia, com foco em travessia de pedestres.

Os dados oficiais do programa paulistano estão no site da Prefeitura de São Paulo.

Semáforo adaptativo não cria multa nova nem endurece a fiscalização, e o amarelo tem piso legal que nenhum algoritmo pode furar. O que ele faz é premiar quem dirige de forma previsível e expor, com números, quanta lentidão em São Paulo nunca foi problema de excesso de carro, mas de sinal mal programado.