A Mercedes-Benz apresentou nesta quarta-feira a terceira geração do GLA elétrico, agora batizado de GLA with EQ Technology. O número que dominou os anúncios foi 657 km de autonomia no ciclo WLTP.
O SUV compacto premium estreia sobre a plataforma MMA, a mesma do novo CLA, com arquitetura elétrica de 800 volts e recarga que chega a 320 kW.
Impressionante no papel. Só que traduzir esse número para a realidade brasileira exige uma conta que a montadora não faz.
Três versões elétricas na largada
A linha estreia com três configurações, todas com velocidade máxima limitada em 210 km/h.
| Versão | Potência | Torque | Tração | Bateria |
|---|---|---|---|---|
| GLA 200 electric | 224 cv (165 kW) | 335 Nm | Dianteira | LFP 58 kWh |
| GLA 250+ electric | 272 cv (200 kW) | 335 Nm | Traseira | NMC 85 kWh |
| GLA 350 4MATIC electric | 354 cv (260 kW) | 515 Nm | Integral | NMC 85 kWh |
A aceleração de 0 a 100 km/h vai de 8,1 segundos na versão de entrada a 5,4 segundos na topo de linha, com o 250+ ficando em 7,3 segundos.
Uma quarta variante, com bateria NMC de 71 kWh, está prevista para o início de 2027.
657 km existem, mas não em qualquer lugar
O número máximo pertence ao GLA 250+ electric, dentro de uma faixa que vai de 577 a 657 km. O 350 4MATIC entrega entre 555 e 643 km, e o 200 electric fica entre 394 e 447 km.
Todos esses valores seguem o padrão WLTP, usado na Europa.
Aqui está o detalhe que nenhuma matéria brasileira explicou. O ciclo WLTP é consistentemente mais generoso que a medição do Inmetro, adotada no Brasil.
O BMW iX1 serve de referência prática: homologa mais de 440 km no WLTP e aparece com 303 a 330 km na etiqueta brasileira. A perda passa de 30%.
Aplicando a mesma proporção, os 657 km do GLA 250+ virariam algo próximo de 450 km em condição nacional. Continua um número forte, mas está longe do que a manchete sugere.
Recarga de 320 kW em um país de 150 kW
A arquitetura de 800 volts é o trunfo técnico da plataforma MMA. Nas versões 250+ e 350 4MATIC, a recarga em corrente contínua alcança 320 kW.
Na prática europeia, isso significa recuperar 270 km de autonomia em dez minutos plugado. O trecho de 10% a 80% leva 22 minutos. No GLA 200, o pico é de 200 kW, com 145 a 165 km recuperados em dez minutos e 20 minutos para o mesmo intervalo de carga.
Em corrente alternada, são 11 kW de série e 22 kW opcionais.
O problema é que a rede brasileira de eletropostos opera majoritariamente entre 50 e 150 kW. Um carregador de 320 kW é raridade absoluta por aqui.
A Mercedes previu parte disso: há um conversor DC opcional que permite carregar em postes de 400 volts, evitando incompatibilidade com infraestrutura mais antiga.

Por que duas químicas de bateria diferentes
A escolha não é aleatória. A versão de entrada usa células LFP, de lítio-ferro-fosfato. As duas superiores adotam NMC, com níquel, manganês e cobalto.
A diferença muda a rotina de quem dirige.
- LFP: mais barata, mais durável em ciclos e tolera carga até 100% no dia a dia sem penalidade relevante de vida útil
- NMC: maior densidade energética, entrega mais autonomia no mesmo espaço, mas trabalha melhor na faixa de 20% a 80% para preservar a bateria
Quem comprar o GLA 200 pode plugar e encher todo dia. Quem levar o 250+ vai conviver com a recomendação de manter a carga em faixa parcial, o que reduz a autonomia útil na rotina.
O SUV cresceu e ganhou porta-malas dianteiro
A mudança de plataforma esticou o carro. O novo GLA tem 4,57 metros de comprimento, 143 mm a mais que o antecessor, com entre-eixos de 2,79 metros, 61 mm maior.
A largura ficou em 1,87 metro e a altura caiu 20 mm, para 1,60 metro. O espaço para as pernas na segunda fileira aumentou 38 mm.
O porta-malas das versões elétricas leva 410 litros, ou 1.400 litros com os bancos rebatidos. Some o frunk de 107 litros e o total chega a 517 litros de espaço de carga, mais que o porta-malas de vários SUVs médios.
Nas versões híbridas o compartimento traseiro sobe para 415 litros, mas não há frunk. O peso em ordem de marcha varia de 2.145 a 2.235 kg.
MBUX Superscreen e um teto com 172 pontos de luz
O interior recebe o sistema MB.OS com assistente virtual baseado em inteligência artificial generativa.
O MBUX Superscreen, opcional, combina painel de 10,25 polegadas, central de 14 polegadas e uma terceira tela de 14 polegadas dedicada ao passageiro.
Entre os itens de efeito estão o teto panorâmico SKY CONTROL, com 172 pontos de luz, e a grade iluminada exclusiva das versões elétricas, que reúne 608 pontos e até 158 micro-LEDs.
As versões híbridas só chegam em 2027
O novo GLA não é exclusivamente elétrico. As configurações mild-hybrid de 48 volts entram na linha no início de 2027.
Elas usam um 1.5 turbo combinado a um motor elétrico integrado de 22 kW e bateria de 1,3 kWh, com câmbio de oito marchas. São esperadas as denominações GLA 200, GLA 220 e GLA 220 4MATIC, com potência entre 163 e 190 cv.
Uma consequência importante: o novo modelo substitui simultaneamente o GLA a combustão e o EQA, que sai de linha. A Mercedes unifica duas famílias em uma só.
Quanto custa e quando chega ao Brasil
Na Europa, o GLA 200 electric parte de 48.599 euros. A CNN Brasil calculou a conversão direta em algo próximo de R$ 300 mil, valor que ignora completamente impostos de importação, frete e margem.
O lançamento comercial europeu das versões elétricas acontece em novembro de 2026. Em Portugal, o cronograma começa no início de 2027 com o 250+ e o 350 4MATIC, deixando o 200 electric para o fim daquele ano.
Sobre o Brasil, não existe qualquer anúncio oficial. Nenhuma data, nenhum preço, nenhuma confirmação de que o modelo virá.
E se vier, entra na conta o imposto de importação de 35% que passou a valer em julho de 2026 para elétricos e híbridos, o que empurraria o preço bem acima da conversão simples.
Como ele se posicionaria contra os rivais daqui
O segmento de SUV elétrico premium compacto já tem ocupantes no mercado brasileiro.
| Modelo | Preço no Brasil | Observação |
|---|---|---|
| Volvo EX40 | R$ 349.950 | Já à venda |
| BMW iX1 | R$ 359.000 a R$ 421.000 | 303 a 330 km no Inmetro |
| Audi Q4 e-tron | R$ 408.000 | Já à venda |
| Mercedes GLA electric | Não anunciado | Sem previsão para o Brasil |
Vale lembrar que o BMW iX3 já trouxe a arquitetura de 800V ao Brasil, então a tecnologia não seria inédita por aqui.
Quem já tem um EQA na garagem precisa se atentar. Com o modelo saindo de linha na Europa, a curva de depreciação tende a acelerar, e acompanhar a tabela FIPE vira exercício periódico.
Para quem vai comprar um seminovo elétrico, checar o histórico veicular do carro antes de assinar é obrigatório. E se a dúvida for entre novo e usado, as vantagens reais do elétrico usado ajudam a decidir.
As especificações completas estão no site oficial da Mercedes-Benz.
O GLA elétrico é tecnicamente competente e embaraça boa parte da concorrência europeia no papel. Mas 657 km de ciclo WLTP e 320 kW de recarga são promessas que só se cumprem pela metade em um país onde o eletroposto médio entrega 150 kW.
O carro que a Mercedes mostrou nesta quarta-feira não é exatamente o carro que o brasileiro dirigiria.
