Nissan troca de comando com 2,7% de mercado

Por Verificar Auto 29/07/2026 às 19:49 6 min de leitura
Nissan troca de comando com 2,7% de mercado
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Ricardo Gondo assume a presidência da Nissan do Brasil em 3 de agosto de 2026. Ele passou 22 anos na Renault e comandou a operação brasileira da rival entre 2019 e julho de 2025.

A conta que ele herda é dura. A Nissan fechou o primeiro semestre com 36.875 automóveis vendidos e 2,7% de participação, na 11ª posição entre as marcas.

Para contexto: a meta que a própria marca anunciou era chegar a 7% até 2026.

Nissan Kicks e-Power azul em vista três quartos
Foto: Wikimedia Commons

Quem é Ricardo Gondo

Engenheiro mecânico formado pelo Instituto Mauá, com pós-graduação em Administração pela FGV-EAESP, Gondo tem 49 anos e construiu praticamente toda a carreira dentro da Renault.

  1. 1996: entra na Renault como gerente de vendas
  2. Anos seguintes: assume diretoria de vendas a empresas e depois de Vendas e Rede no Brasil
  3. 2016: volta à América Latina como vice-presidente de Vendas e Marketing da Região Américas, baseado em Buenos Aires
  4. Passagem europeia: CEO da Renault na Espanha e em Portugal, com base em Madri
  5. 1º de janeiro de 2019: assume a presidência da Renault do Brasil
  6. 14 de julho de 2025: deixa o cargo
  7. 3 de agosto de 2026: assume como Presidente e Diretor Geral da Nissan do Brasil

Ele se reporta a Guy Rodriguez, presidente da Nissan América Latina.

“Ele traz sua ampla experiência no setor automotivo, com forte conhecimento do mercado brasileiro, em um momento importante da Nissan”, declarou Rodriguez no comunicado oficial.

Por que Gonzalo Ibarzábal saiu

O antecessor estava no comando desde 2023 e completava 12 anos de casa. O release oficial não informa o motivo da saída, limitando-se a agradecer “pela sua dedicação e contribuição para a evolução da Nissan nesses anos”.

Segundo apuração do blog de Jorge Moraes na CNN Brasil, Ibarzábal decidiu voltar à Argentina para ficar perto da família.

A mesma fonte traz uma leitura de bastidor mais reveladora: a troca teria sido inesperada e ligada ao desgaste com a rede de concessionárias. Os pontos de atrito citados são insatisfação com decisões comerciais, indisponibilidade de produto e falta de resposta à ofensiva chinesa.

A dependência de um único modelo

Este é o dado que dimensiona o problema real de portfólio.

O Nissan Kait, SUV compacto lançado em dezembro de 2025 a partir de R$ 117.990, emplacou 15.196 unidades no primeiro semestre. Ele vende mais que o Kicks e responde por cerca de metade de tudo que a marca comercializa no Brasil.

Um modelo de entrada carregando 50% do volume é sinal de linha desequilibrada, não de sucesso comercial.

No outro extremo, o Sentra registrou apenas 341 unidades no semestre, com 9 emplacamentos em junho. O sedã saiu de linha no Brasil, e a comparação explica: no mesmo período, o Toyota Corolla fez 13.021 unidades e o BYD King, 8.196.

Perder espaço em mercado que cresce

O agravante do diagnóstico é o cenário. O mercado brasileiro subiu 7,4% no início do ano e 18,96% em junho na comparação anual.

A Nissan perdeu participação justamente enquanto o bolo crescia. Historicamente a marca oscila na casa dos 3%, ocasionalmente alcançando 4%, e agora está em 2,7%.

Vale lembrar que outros produtos ficaram no caminho. O X-Trail teve retorno anunciado sem data confirmada e o Magnite segue sem confirmação de venda no país.

Resende no centro do jogo

O Complexo Industrial de Resende, no Rio de Janeiro, foi inaugurado em 2014 e passou por modernização. Hoje opera com 98 robôs e veículos autônomos, com capacidade de 32 veículos por hora.

A produção do novo Kicks começou lá em maio de 2025. O ciclo atual de investimento no Brasil é de R$ 2,8 bilhões.

E existe um vizinho novo. A Dongfeng vai usar espaço ocioso da fábrica de Resende para produzir seus elétricos, amparada na joint venture global com a Nissan.

Gondo assume, portanto, uma planta que passa a dividir o galpão com uma marca chinesa.

A Nissan vai fechar Resende?

Essa busca cresceu, e a resposta é não.

O plano global Re:Nissan prevê reduzir de 17 para 10 fábricas de veículos até o ano fiscal de 2027. Resende segue na lista de plantas produtivas e não está entre as unidades a serem cortadas.

O que alimenta a dúvida são outros sinais de enxugamento: a marca fechou o estúdio de design no Brasil e o escritório no centro do Rio, concentrando a operação em Resende e São Paulo.

A crise global que respinga aqui

O contexto internacional pressiona qualquer decisão local. A Nissan acumulou prejuízo líquido superior a 533 bilhões de ienes, no segundo ano consecutivo no vermelho.

O plano Re:Nissan prevê corte de 500 bilhões de ienes em custos fixos e variáveis, com 20 mil demissões, cerca de 15% da força de trabalho mundial.

Nesse cenário, Resende precisa provar rentabilidade para seguir recebendo investimento.

O que vem por aí no produto

A marca prometeu renovar 40% do portfólio em 2026 e 100% em 2027. Três frentes aparecem no radar brasileiro.

Modelo Tecnologia Situação
Frontier Pro PHEV 1.5 + elétrico, 402 cv e 81,6 kgfm Previsto para início de 2027
Nissan N7 Sedã elétrico, autonomia acima de 600 km Produzido na China com a Dongfeng
Nissan Kait 1.6 flex, CVT Xtronic Já em linha, exportado para a América Latina

A Frontier Pro PHEV promete até 135 km em modo elétrico no ciclo chinês. O N7 é o modelo que ocupa o espaço deixado pelo Sentra, e é elétrico e chinês, o que resume bem o reposicionamento em curso.

O Kait será exportado para cerca de 20 países da América Latina, e já chega a sete.

O que é o e-Power, afinal

A Nissan fala muito nessa tecnologia e quase ninguém explica o que ela é.

No e-Power, o motor a combustão nunca traciona as rodas. Ele funciona exclusivamente como gerador, produzindo eletricidade para o motor elétrico que move o carro.

A diferença em relação a um híbrido convencional é essa: você dirige sempre em modo elétrico, sem precisar plugar o carro na tomada. O tanque de combustível alimenta o gerador.

O que muda para quem quer comprar

A rede de concessionárias segue ativa, e a marca continua vendendo Kicks, Kait e Frontier no país.

Quem tem um Sentra precisa ficar atento ao suprimento de peças de um modelo descontinuado. Não é motivo de pânico, já que o carro segue em linha em outros mercados, mas prazos de reposição tendem a esticar.

Para quem avalia um Nissan seminovo, checar o histórico veicular e consultar a placa continua sendo o básico. Em modelo saindo de linha, vale também acompanhar a tabela FIPE, porque a depreciação costuma acelerar depois do anúncio.

Informações oficiais sobre a linha atual estão no site da Nissan Brasil.

Gondo chega com a credencial mais relevante para a vaga: sabe vender carro no Brasil e conhece a rede por dentro.

O problema é que os 2,7% de share não vêm de má gestão local. Vêm de uma matriz em reestruturação que passou anos sem entregar produto novo, e consertar isso não depende de quem senta na cadeira em Resende.