O PL 6860/25 quer criar um cadastro positivo para motoristas profissionais no Brasil. A proposta parece nova, mas esbarra em um detalhe importante: o CTB já tem o RNPC, o cadastro positivo de condutores. A diferença está no recorte e no uso dos dados.
Na prática, a discussão vai além de “premiar bom motorista”. O projeto toca em seguro, crédito, contratação por apps e LGPD. E aqui mora o ponto central: isso vira benefício real ou só mais uma base de dados?
O que o PL 6860/25 muda
O texto propõe um Cadastro Positivo de Motoristas Profissionais em âmbito nacional. A ideia é registrar histórico de condução segura e boas práticas de quem trabalha com transporte de passageiros ou cargas.
A adesão seria voluntária. Os dados poderiam ser compartilhados com empregadores, cooperativas, plataformas, seguradoras e instituições financeiras, para gerar vantagens como crédito melhor e seguro mais barato.
O problema é que o conceito não nasce do zero. O CTB já prevê o RNPC, o Registro Nacional Positivo de Condutores, que reconhece motoristas sem infrações em determinado período. O PL 6860/25 tenta especializar essa lógica para quem vive do volante.

Quem é afetado pela proposta
Motoristas de aplicativo, taxistas, caminhoneiros, entregadores e condutores de frotas entram no radar. Também entram empresas que contratam ou gerenciam esse tipo de mão de obra.
Seguradoras e bancos podem ser afetados se o cadastro ganhar força no mercado. Sem adesão desses players, o benefício prático fica pequeno. Lei sem uso comercial vira cadastro decorativo.
Há ainda um efeito indireto sobre quem tem histórico ruim. Se o mercado adotar o cadastro como critério de risco, um evento pontual pode pesar na contratação ou no preço do seguro.
Penalidade: multa e pontos não entram aqui
Este projeto não cria infração de trânsito, então não prevê multa nem pontos na CNH. O PL trata de cadastro e compartilhamento de informações, não de punição por conduta no volante.
Isso é importante para não confundir o leitor. Se aprovado, o efeito seria administrativo e econômico. A consequência prática pode ser acesso ou não a benefícios, e não autuação.
Já o risco real está no uso inadequado dos dados. Se houver tratamento fora das regras, a discussão sai do trânsito e entra em proteção de dados, contrato e responsabilidade civil.
Prazo de vigência e tramitação
O PL 6860/25 ainda tramita na Câmara. Depois, precisa passar pelo Senado e pela sanção presidencial. Ou seja: não é lei agora.
Não há prazo de vigência definido porque o texto ainda pode mudar. E pode mudar bastante. Em Brasília, projeto parecido raramente sai igual ao que entrou.
Para acompanhar a tramitação oficial, o caminho mais seguro é o portal da Câmara dos Deputados e a consulta legislativa. O site oficial está em camara.leg.br.
Base legal que já existe: RNPC no CTB
O ponto que mais importa é este: o Brasil já tem o RNPC. Ele não foi criado pelo PL 6860/25. A lógica já está no Código de Trânsito Brasileiro, dentro do sistema de gestão de condutores.
Isso muda a leitura do projeto. Em vez de inaugurar o cadastro positivo, a proposta tenta criar uma versão mais focada em motorista profissional. É uma segmentação, não uma revolução.
Se quiser entender a lógica de outros cadastros e documentos, vale ler também nosso guia sobre IPVA e isenções, a análise de autuações com câmeras da PRF e o conteúdo sobre mitos da manutenção do carro.

Como o cadastro pode funcionar na prática
Se o modelo avançar, o cadastro tende a reunir histórico de condução, ausência de infrações e comportamento regular no trânsito. A promessa é transformar boa direção em vantagem econômica.
Na ponta do mercado, isso pode aparecer em três frentes: seguro, crédito e contratação. Um motorista com histórico limpo pode ser visto como risco menor. Isso pesa na planilha de qualquer empresa.
Mas o desconto não nasce por mágica. A seguradora só reduz preço se tiver ganho estatístico real. Sem base de dados robusta e adesão ampla, o benefício pode ficar simbólico.
LGPD e uso dos dados
Esse é o trecho mais sensível. Compartilhar informações com empresas privadas exige cuidado com a LGPD, finalidade clara e limite de acesso. Sem isso, o cadastro vira problema, não solução.
O motorista precisa saber quais dados entram, quem consulta e por quanto tempo ficam armazenados. Transparência aqui não é enfeite. É obrigação.
Também existe o risco de monitoramento excessivo no trabalho. Uma base pensada para reconhecer bons condutores pode virar ferramenta de pressão sobre quem dirige para ganhar a vida.
Como o motorista profissional pode se preparar
Hoje, o melhor caminho é manter a documentação em ordem e evitar infrações. Parece básico, mas é o que sustenta qualquer cadastro positivo. Quem tem histórico limpo parte na frente.
Também vale acompanhar o próprio prontuário e conferir se não há erro administrativo. Multa indevida, ponto lançado errado e duplicidade de autuação acontecem. E atrapalham.
Se você trabalha por app, frota ou transporte de carga, vale redobrar o cuidado com CNH, CRLV e eventuais pendências no portal oficial do governo. Antes de fechar negócio com empresa ou parceiro, uma consulta veicular pode revelar sinistro, gravame ou outra dor de cabeça.
Preço do benefício: o que pode mudar no bolso
Não existe valor definido no projeto. O impacto financeiro viria, se vier, por meio de seguro mais barato, crédito com taxa menor e vantagem em contratação.
O ganho pode ser real para quem roda muito e mantém histórico limpo. Para o profissional que depende do veículo para trabalhar, qualquer redução no custo fixo faz diferença.
Mas não espere milagre. No Brasil, benefício bom costuma vir com adesão lenta, regra confusa e desconto pequeno. O mercado adora a ideia e demora para entregar.
Perguntas frequentes
O PL 6860/25 já está valendo?
Não. O projeto ainda tramita na Câmara e precisa passar por outras etapas antes de virar lei.
Esse projeto cria multa ou pontos na CNH?
Não. O PL trata de cadastro positivo e uso de dados, sem criar infração de trânsito.
O cadastro positivo para motoristas profissionais é diferente do RNPC?
Sim. O RNPC já existe no CTB para condutores em geral; o PL 6860/25 tenta focar nos motoristas profissionais.
Quem pode ganhar benefício com esse cadastro?
Motoristas profissionais podem ganhar acesso a seguro mais barato, crédito melhor e vantagem em contratação, se o mercado aderir.
Quais cuidados o motorista deve ter com os dados?
Transparência e consentimento são essenciais. O motorista precisa saber quem consulta, por quê e como os dados serão usados.

Se o PL avançar, o debate vai sair do papel e entrar no bolso. O que define o valor real da proposta não é o nome do cadastro. É a adesão de bancos, seguradoras e empresas de transporte.

