Exame médico da CNH faz sentido? Estudo liga 28%

Por Verificar Auto 28/05/2026 às 21:36 5 min de leitura
Exame médico da CNH faz sentido? Estudo liga 28%
5 min de leitura

Saúde do motorista entrou pesado na conta dos sinistros nas rodovias federais. Levantamento da Abramet, com base em registros da PRF, aponta que 27,8% das 4,3 milhões de ocorrências entre 2014 e 2024 tiveram relação com condições físicas ou mentais do condutor.

Não é detalhe de consultório. É assunto de trânsito, CNH, seguro e operação de frota.

Trânsito não é só asfalto e radar

O número bruto assusta mais: foram 1.206.491 ocorrências ligadas à saúde do motorista em 11 anos. Na média, isso dá quase 109,7 mil casos por ano. Ou perto de 300 por dia.

Tem mais. No mesmo levantamento, 49% dos sinistros aparecem ligados a fator humano ou comportamento inadequado. Infraestrutura respondeu por 8%, falhas nos veículos por 7% e aspectos ambientais por 4%.

Recorte do levantamento Participação
Relação com saúde do motorista 27,8%
Fator humano / comportamento inadequado 49%
Infraestrutura viária 8%
Falhas nos veículos 7%
Aspectos ambientais 4%

Isso mexe com o leitor comum e com quem vive da estrada. Caminhoneiro, motorista de app, vendedor que cruza estados e frotista estão no centro dessa conta.

O que entra em “saúde do motorista”

A lista vai muito além de mal súbito. O estudo relaciona sono, ausência de reação, falta de atenção, transtornos mentais, uso de substâncias psicoativas, doenças oculares, problemas motores e alterações neurológicas.

Parece exagero ligar uma noite mal dormida a um capotamento? Na estrada, não é. Sonolência atrasa reação, faz o carro invadir faixa e aumenta o risco de saída de pista e colisão frontal.

Também entram remédios sedativos, crises de pressão, glicemia fora de controle e visão ruim. Quem já pegou serra cansado sabe como 2 segundos de distração viram uma eternidade.

No transporte de carga e passageiros, a situação pesa mais. Jornada longa, turno ruim, alimentação bagunçada e descanso curto formam a combinação errada para quem roda centenas de quilômetros.

  • Sono e fadiga: reduzem reflexo e podem causar microcochilos.
  • Visão comprometida: atrapalha leitura de placas, distância e percepção noturna.
  • Transtornos mentais: afetam atenção, julgamento e resposta a risco.
  • Uso de substâncias: altera reflexo, percepção e controle do veículo.
  • Crises súbitas: pressão, diabetes e problemas neurológicos podem tirar o motorista de ação.

Os estados onde o problema aparece mais

No recorte proporcional, Roraima lidera. Lá, 35,1% dos sinistros tiveram relação com a saúde do condutor. Mato Grosso do Sul vem depois, com 32,1%.

Pará registra 30,3%. Rio Grande do Sul aparece com 30,1%. Piauí fecha o grupo mais alto, com 30%.

Estado Sinistros com relação à saúde
Roraima 35,1%
Mato Grosso do Sul 32,1%
Pará 30,3%
Rio Grande do Sul 30,1%
Piauí 30%

No volume absoluto, Minas Gerais lidera com 154.648 ocorrências ligadas à saúde dos condutores. Depois vêm Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Esse recorte faz sentido. Minas tem malha rodoviária enorme, muito tráfego de carga e deslocamento longo. Quanto mais exposição, maior a chance de fadiga, desatenção e crise de saúde aparecerem na estatística.

Quem mais aparece nos registros

Homens estiveram envolvidos em 66,1% dos sinistros analisados. A maior concentração está entre 20 e 59 anos, com destaque para os grupos de 30 a 39 anos e 20 a 29 anos.

O dado quebra uma ideia comum. Não é só o idoso que preocupa. O adulto economicamente ativo, que trabalha, entrega, viaja e corre contra o relógio, está muito exposto.

Ao mesmo tempo, até 19 anos e pessoas com 60 anos ou mais aparecem proporcionalmente mais entre as vítimas fatais. Aí entram inexperiência de um lado e maior vulnerabilidade física do outro.

O exame médico da CNH ganhou argumento forte

O estudo reacende a discussão sobre o Exame de Aptidão Física e Mental na renovação da CNH. E com razão. Se quase 1 em cada 3 sinistros tem relação com saúde, cortar checagem médica seria andar na contramão.

Hoje, a renovação da habilitação segue exigindo avaliação médica, com periodicidade que varia conforme idade e eventuais restrições do condutor. Motoristas profissionais também podem enfrentar exigências específicas, dependendo da categoria e do caso.

As regras e os serviços de renovação estão no portal oficial da Senatran. Vale consultar a norma vigente antes de renovar, porque prazo e exigência prática passam por atualizações.

Seguro, licenciamento e manutenção sempre entram na conta do carro. Mas saúde do motorista ainda fica de lado. Estranho, porque pneu ruim aparece na revisão; sono ruim, não.

O que dá para fazer antes da próxima viagem

Tem prevenção simples e barata. Dormir de verdade antes de viajar, fazer pausas, rever remédios que causam sonolência e controlar pressão, glicemia e visão já corta parte do risco.

Quem roda a trabalho precisa de atenção dobrada. Empresa séria monitora jornada, descanso e estado físico do motorista. Frotista que ignora isso pode economizar no curto prazo e perder muito mais num único sinistro.

Para o condutor comum, o alerta é direto: se estiver cansado, doente, tonto ou medicado, adiar a saída é mais inteligente do que “forçar mais 200 km”. O relógio atrasa. O guincho e a ambulância custam bem mais.

Os números da Abramet colocam a saúde do motorista no mesmo nível de debate que radar, pista e manutenção. A pergunta que fica é pesada: com o exame médico ainda em vigor, o país já soma 1,2 milhão de ocorrências ligadas a esse fator — imagine se a checagem afrouxar.