Chery traz quarta marca ao Brasil ainda em agosto

Por Verificar Auto 29/07/2026 às 19:49 8 min de leitura
Chery traz quarta marca ao Brasil ainda em agosto
8 min de leitura

O grupo Chery vai lançar sua quarta marca no Brasil em agosto: a iCAUR. A convenção com candidatos a concessionários está marcada para o dia 6, e a apresentação ao público acontece no Festival Interlagos, entre 27 e 30 de agosto.

A marca vende SUVs de desenho quadrado, com faróis circulares e estética de jipe clássico. O carro mais provável de abrir a operação foi co-desenvolvido com uma empresa do ecossistema Xiaomi.

E o nome escrito de forma estranha não é erro de digitação. Tem explicação jurídica, e ela envolve a Apple.

Motorista ao volante em ambiente urbano
Foto: Unsplash

Por que o nome é escrito assim

Na China, a marca se chama iCar. Fora do país, virou iCAUR.

Segundo o AutoPapo, “a troca de letras faz parte da estratégia global da marca para evitar conflito com registros em outros mercados, entre eles o antigo projeto automotivo da Apple”.

O iCar era justamente o codinome do carro que a Apple desenvolveu por anos e acabou cancelando. A Chery preferiu não testar a paciência dos advogados de Cupertino.

Há uma ironia adicional: o principal modelo da marca foi criado em parceria com a Zhimi Technology, empresa do ecossistema Xiaomi. Ou seja, um projeto que evita o nome da Apple nasce da mão de quem virou concorrente dela em celular.

O V23, o jipinho elétrico

É o modelo que o AutoRanking aponta como escolhido para capitanear a operação brasileira.

iCAUR V23
Tipo SUV compacto 100% elétrico
Comprimento 4.220 mm
Entre-eixos 2.730 mm
Baterias 50,6 a 69,8 kWh (LFP) ou 80,16 a 81,7 kWh (NMC)
Potência (versão AWD) 211 cv, com 29 kgfm
0 a 100 km/h 7,5 s na versão de 211 cv
Autonomia até 550 km no ciclo chinês CLTC

A gama chinesa vai da versão de 134 cv com tração traseira até uma topo de linha 450S de 449 cv. O que virá ao Brasil não foi definido.

Na divisão de trabalho da parceria, a Zhimi cuida de definição de produto, planejamento e engenharia, enquanto a Chery assume produção, cadeia de suprimentos, vendas e pós-venda.

Atenção ao número de autonomia: os 550 km são medidos no CLTC, o ciclo chinês, que é bem mais generoso que a medição brasileira. No Inmetro, esse valor cairia consideravelmente.

O V27, o rival do Defender

O AutoShow aponta o V27 como provável estreante, divergindo do AutoRanking. É um SUV grande com sistema de autonomia estendida.

Ele tem entre 4,9 e 5 metros de comprimento, com entre-eixos de 2,91 m. A versão de tração integral chega a cerca de 455 cv.

A autonomia em modo elétrico puro fica entre 150 e 200 km, dependendo da fonte, e o total combinado passa de 1.000 km no ciclo chinês.

O que é um REEV, afinal

O V27 usa uma tecnologia que confunde bastante, e vale explicar.

Ele tem um motor 1.5 turbo, mas esse motor nunca move as rodas. Ele funciona exclusivamente como gerador de eletricidade.

A tração é sempre elétrica. O motor a combustão entra apenas para produzir energia quando a bateria baixa, estendendo o alcance.

A diferença em relação a um híbrido plug-in convencional é essa: no plug-in, o motor a combustão pode tracionar as rodas diretamente. No REEV, jamais.

Se o tema interessa, vale conhecer as regras que valem para elétricos e híbridos no Brasil.

Quem vai vender

A operação deve ficar sob a estrutura da Omoda & Jaecoo, não da CAOA. Essa é a informação de três das quatro fontes que apuraram o assunto.

A convenção de 6 de agosto será comandada por Hu Peng, CEO da operação brasileira, e por Roger Corassa, vice-executivo.

O modelo replica o que a Chery usou para lançar a Lepas: estrutura independente, sem interferência da CAOA.

Por que a marca não nasce sob a CAOA

A explicação está em Jacareí, no interior paulista.

A fábrica foi inaugurada em 2014, a primeira de montadora chinesa no Brasil, produzindo os modelos Celer e QQ. A CAOA entrou como parceira em 2017, e as atividades foram suspensas em 2022.

Hoje, 436 mil metros quadrados do complexo estão cedidos à Omoda & Jaecoo. E em 21 de julho de 2026 a Prefeitura de Jacareí iniciou processo de desapropriação da unidade da Caoa Chery.

Nesse contexto, faz sentido que a nova marca nasça na estrutura que está funcionando.

Omoda e Jaecoo como termômetro

Para estimar a velocidade que uma submarca da Chery consegue no Brasil, o melhor parâmetro é a estreia mais recente do grupo.

Indicador Resultado
Estreia no Brasil Abril de 2025
Emplacamentos em junho de 2026 4.832 unidades (melhor mês)
Acumulado desde a estreia 24.024 unidades
Concessionárias em operação 100, com meta de 150 até dezembro
Projeção até 50 mil veículos e 3 novos modelos

O centro de distribuição de Cajamar dobrou de tamanho, de 1.600 para cerca de 3.000 metros quadrados. É estrutura de quem pretende ficar.

Na China, o V23 teve trajetória parecida: saltou de 3.232 unidades em 2024 para 65.573 em 2025. A marca também já estreou em Dubai, Tailândia, Malásia, Indonésia e África do Sul.

“Nosso objetivo é fazer da iCAUR a marca automotiva mais desejada do Oriente Médio”, declarou Zhang Xiaolong, gerente-geral da Chery International para a região, no lançamento em Dubai.

Quantas marcas chinesas o Brasil aguenta

A iCAUR será a quarta marca do grupo Chery no país, somando-se a Omoda & Jaecoo, Jetour e Lepas, além da própria Caoa Chery.

No total, a lista de chinesas em operação ou em chegada já passa de quinze nomes: BYD, GWM, Caoa Chery, Omoda & Jaecoo, Jetour, Lepas, Geely, GAC, Zeekr, Leapmotor, MG, Dongfeng, BAIC, Avatr, Foton e JAC.

Consolidadas, com volume e rede estabelecida, são poucas: BYD, Caoa Chery e GWM. A Geely anunciou produção local do EX2 em São José dos Pinhais, no Paraná, para o fim de 2026, via estrutura da Renault. A GWM projeta o Ora 5 nacional para 2029.

Vale lembrar que o Brasil virou o maior importador de carros chineses do mundo, o que explica a corrida das marcas para cá.

Comprar de marca recém-chegada: o que avaliar

Esse é o ângulo que nenhuma matéria sobre a iCAUR aborda, e é o mais útil para quem lê.

O histórico brasileiro com marcas chinesas nos anos 2000 deixou cicatriz. Vários nomes entraram, venderam pouco, e quem comprou ficou sem peça e sem assistência quando a operação encerrou.

Pesquisas de mercado mostram que quase metade dos consumidores entrevistados teme o desaparecimento de marcas chinesas nos próximos cinco anos, justamente por causa da reposição de peças.

Quatro pontos que valem verificação antes de ser o primeiro comprador de uma marca nova:

  1. Rede de assistência: quantas oficinas autorizadas existem na sua cidade e no seu estado, não no país inteiro
  2. Estoque de peças: se há centro de distribuição nacional e qual o prazo médio de reposição de item de colisão
  3. Compromisso de longo prazo: anúncio de produção local é o sinal mais forte de que a marca veio para ficar
  4. Garantia por escrito: prazo, cobertura de bateria em caso de elétrico e quem honra a garantia se o importador mudar

Na hora de revender, o histórico documental do carro pesa ainda mais em modelo de marca pouco conhecida. Manter o histórico veicular limpo e consultar a placa antes de qualquer transação ajuda a sustentar valor. Acompanhar a tabela FIPE mostra como o mercado está precificando a marca ao longo do tempo.

O que ainda não foi confirmado

Vale ser transparente sobre o tamanho da informação disponível. Não existe comunicado oficial da Chery ou da iCAUR Brasil publicado até agora, e toda a cobertura vem de apuração com candidatos a concessionários.

Segue sem definição:

  • Preço de qualquer modelo no Brasil
  • Data de início efetivo das vendas
  • Se os carros serão importados ou montados em Jacareí
  • Número de lojas na estreia e meta de vendas
  • Versões, equipamentos e garantia para o mercado brasileiro

Sobre preço, uma referência apenas para dimensionar: o V23 parte de 119.800 yuans na China, cerca de US$ 16.500. A conversão direta não serve de estimativa, porque não inclui frete, margem e o imposto de importação de elétricos, que chegou a 35% em julho.

O Festival Interlagos, onde a marca se apresenta ao público, terá ingressos a partir de R$ 98, e não há venda de veículos prevista no evento.

Um grupo lançar quatro marcas no mesmo país em pouco mais de um ano diz menos sobre demanda brasileira e mais sobre pressa chinesa em ocupar espaço antes que o mercado feche a janela. Quem comprar primeiro vai descobrir na prática quais dessas marcas ainda existirão quando o carro precisar da primeira peça de colisão.