O grupo Chery vai lançar sua quarta marca no Brasil em agosto: a iCAUR. A convenção com candidatos a concessionários está marcada para o dia 6, e a apresentação ao público acontece no Festival Interlagos, entre 27 e 30 de agosto.
A marca vende SUVs de desenho quadrado, com faróis circulares e estética de jipe clássico. O carro mais provável de abrir a operação foi co-desenvolvido com uma empresa do ecossistema Xiaomi.
E o nome escrito de forma estranha não é erro de digitação. Tem explicação jurídica, e ela envolve a Apple.

Por que o nome é escrito assim
Na China, a marca se chama iCar. Fora do país, virou iCAUR.
Segundo o AutoPapo, “a troca de letras faz parte da estratégia global da marca para evitar conflito com registros em outros mercados, entre eles o antigo projeto automotivo da Apple”.
O iCar era justamente o codinome do carro que a Apple desenvolveu por anos e acabou cancelando. A Chery preferiu não testar a paciência dos advogados de Cupertino.
Há uma ironia adicional: o principal modelo da marca foi criado em parceria com a Zhimi Technology, empresa do ecossistema Xiaomi. Ou seja, um projeto que evita o nome da Apple nasce da mão de quem virou concorrente dela em celular.
O V23, o jipinho elétrico
É o modelo que o AutoRanking aponta como escolhido para capitanear a operação brasileira.
| iCAUR V23 | |
|---|---|
| Tipo | SUV compacto 100% elétrico |
| Comprimento | 4.220 mm |
| Entre-eixos | 2.730 mm |
| Baterias | 50,6 a 69,8 kWh (LFP) ou 80,16 a 81,7 kWh (NMC) |
| Potência (versão AWD) | 211 cv, com 29 kgfm |
| 0 a 100 km/h | 7,5 s na versão de 211 cv |
| Autonomia | até 550 km no ciclo chinês CLTC |
A gama chinesa vai da versão de 134 cv com tração traseira até uma topo de linha 450S de 449 cv. O que virá ao Brasil não foi definido.
Na divisão de trabalho da parceria, a Zhimi cuida de definição de produto, planejamento e engenharia, enquanto a Chery assume produção, cadeia de suprimentos, vendas e pós-venda.
Atenção ao número de autonomia: os 550 km são medidos no CLTC, o ciclo chinês, que é bem mais generoso que a medição brasileira. No Inmetro, esse valor cairia consideravelmente.
O V27, o rival do Defender
O AutoShow aponta o V27 como provável estreante, divergindo do AutoRanking. É um SUV grande com sistema de autonomia estendida.
Ele tem entre 4,9 e 5 metros de comprimento, com entre-eixos de 2,91 m. A versão de tração integral chega a cerca de 455 cv.
A autonomia em modo elétrico puro fica entre 150 e 200 km, dependendo da fonte, e o total combinado passa de 1.000 km no ciclo chinês.
O que é um REEV, afinal
O V27 usa uma tecnologia que confunde bastante, e vale explicar.
Ele tem um motor 1.5 turbo, mas esse motor nunca move as rodas. Ele funciona exclusivamente como gerador de eletricidade.
A tração é sempre elétrica. O motor a combustão entra apenas para produzir energia quando a bateria baixa, estendendo o alcance.
A diferença em relação a um híbrido plug-in convencional é essa: no plug-in, o motor a combustão pode tracionar as rodas diretamente. No REEV, jamais.
Se o tema interessa, vale conhecer as regras que valem para elétricos e híbridos no Brasil.
Quem vai vender
A operação deve ficar sob a estrutura da Omoda & Jaecoo, não da CAOA. Essa é a informação de três das quatro fontes que apuraram o assunto.
A convenção de 6 de agosto será comandada por Hu Peng, CEO da operação brasileira, e por Roger Corassa, vice-executivo.
O modelo replica o que a Chery usou para lançar a Lepas: estrutura independente, sem interferência da CAOA.
Por que a marca não nasce sob a CAOA
A explicação está em Jacareí, no interior paulista.
A fábrica foi inaugurada em 2014, a primeira de montadora chinesa no Brasil, produzindo os modelos Celer e QQ. A CAOA entrou como parceira em 2017, e as atividades foram suspensas em 2022.
Hoje, 436 mil metros quadrados do complexo estão cedidos à Omoda & Jaecoo. E em 21 de julho de 2026 a Prefeitura de Jacareí iniciou processo de desapropriação da unidade da Caoa Chery.
Nesse contexto, faz sentido que a nova marca nasça na estrutura que está funcionando.
Omoda e Jaecoo como termômetro
Para estimar a velocidade que uma submarca da Chery consegue no Brasil, o melhor parâmetro é a estreia mais recente do grupo.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Estreia no Brasil | Abril de 2025 |
| Emplacamentos em junho de 2026 | 4.832 unidades (melhor mês) |
| Acumulado desde a estreia | 24.024 unidades |
| Concessionárias em operação | 100, com meta de 150 até dezembro |
| Projeção | até 50 mil veículos e 3 novos modelos |
O centro de distribuição de Cajamar dobrou de tamanho, de 1.600 para cerca de 3.000 metros quadrados. É estrutura de quem pretende ficar.
Na China, o V23 teve trajetória parecida: saltou de 3.232 unidades em 2024 para 65.573 em 2025. A marca também já estreou em Dubai, Tailândia, Malásia, Indonésia e África do Sul.
“Nosso objetivo é fazer da iCAUR a marca automotiva mais desejada do Oriente Médio”, declarou Zhang Xiaolong, gerente-geral da Chery International para a região, no lançamento em Dubai.
Quantas marcas chinesas o Brasil aguenta
A iCAUR será a quarta marca do grupo Chery no país, somando-se a Omoda & Jaecoo, Jetour e Lepas, além da própria Caoa Chery.
No total, a lista de chinesas em operação ou em chegada já passa de quinze nomes: BYD, GWM, Caoa Chery, Omoda & Jaecoo, Jetour, Lepas, Geely, GAC, Zeekr, Leapmotor, MG, Dongfeng, BAIC, Avatr, Foton e JAC.
Consolidadas, com volume e rede estabelecida, são poucas: BYD, Caoa Chery e GWM. A Geely anunciou produção local do EX2 em São José dos Pinhais, no Paraná, para o fim de 2026, via estrutura da Renault. A GWM projeta o Ora 5 nacional para 2029.
Vale lembrar que o Brasil virou o maior importador de carros chineses do mundo, o que explica a corrida das marcas para cá.
Comprar de marca recém-chegada: o que avaliar
Esse é o ângulo que nenhuma matéria sobre a iCAUR aborda, e é o mais útil para quem lê.
O histórico brasileiro com marcas chinesas nos anos 2000 deixou cicatriz. Vários nomes entraram, venderam pouco, e quem comprou ficou sem peça e sem assistência quando a operação encerrou.
Pesquisas de mercado mostram que quase metade dos consumidores entrevistados teme o desaparecimento de marcas chinesas nos próximos cinco anos, justamente por causa da reposição de peças.
Quatro pontos que valem verificação antes de ser o primeiro comprador de uma marca nova:
- Rede de assistência: quantas oficinas autorizadas existem na sua cidade e no seu estado, não no país inteiro
- Estoque de peças: se há centro de distribuição nacional e qual o prazo médio de reposição de item de colisão
- Compromisso de longo prazo: anúncio de produção local é o sinal mais forte de que a marca veio para ficar
- Garantia por escrito: prazo, cobertura de bateria em caso de elétrico e quem honra a garantia se o importador mudar
Na hora de revender, o histórico documental do carro pesa ainda mais em modelo de marca pouco conhecida. Manter o histórico veicular limpo e consultar a placa antes de qualquer transação ajuda a sustentar valor. Acompanhar a tabela FIPE mostra como o mercado está precificando a marca ao longo do tempo.
O que ainda não foi confirmado
Vale ser transparente sobre o tamanho da informação disponível. Não existe comunicado oficial da Chery ou da iCAUR Brasil publicado até agora, e toda a cobertura vem de apuração com candidatos a concessionários.
Segue sem definição:
- Preço de qualquer modelo no Brasil
- Data de início efetivo das vendas
- Se os carros serão importados ou montados em Jacareí
- Número de lojas na estreia e meta de vendas
- Versões, equipamentos e garantia para o mercado brasileiro
Sobre preço, uma referência apenas para dimensionar: o V23 parte de 119.800 yuans na China, cerca de US$ 16.500. A conversão direta não serve de estimativa, porque não inclui frete, margem e o imposto de importação de elétricos, que chegou a 35% em julho.
O Festival Interlagos, onde a marca se apresenta ao público, terá ingressos a partir de R$ 98, e não há venda de veículos prevista no evento.
Um grupo lançar quatro marcas no mesmo país em pouco mais de um ano diz menos sobre demanda brasileira e mais sobre pressa chinesa em ocupar espaço antes que o mercado feche a janela. Quem comprar primeiro vai descobrir na prática quais dessas marcas ainda existirão quando o carro precisar da primeira peça de colisão.