Os carros que menos desvalorizam no Brasil

Por Verificar Auto 10/07/2025 às 10:18 8 min de leitura Atualizado: 30/07/2026
Os carros que menos desvalorizam no Brasil
8 min de leitura

A Toyota Hilux e a Fiat Strada perderam apenas 4% do valor em doze meses. O Toyota Corolla a combustão manteve o preço de tabela praticamente intacto, e a Ram 3500 fez o improvável: valorizou 19%.

Os dados são do levantamento Melhor Revenda 2026, da Quatro Rodas com a consultoria Suiv, que avaliou 213 modelos. A média de desvalorização do mercado ficou em 12%.

E tem uma reviravolta em 2026 que derruba o que todo mundo repetia sobre carro elétrico.

Como se mede a desvalorização

Antes dos números, vale entender por que rankings diferentes mostram percentuais diferentes para o mesmo carro.

Existem duas metodologias principais no Brasil, e elas medem coisas distintas:

  • Por tabela FIPE: compara o valor de referência do modelo entre duas datas. É o método da Suiv, usado pela Quatro Rodas, com janeiro de 2025 contra janeiro de 2026
  • Por preço de anúncio: compara o que os vendedores realmente pedem no mercado. É o método da Webmotors, usado no guia Qual Comprar da Autoesporte, com 201 modelos avaliados

Há ainda a distinção entre desvalorização nominal e real. A nominal é a queda pura do preço. A real desconta a inflação, e por isso costuma ser maior.

Neste guia usamos os percentuais nominais dos dois estudos, sempre com a fonte identificada.

Os campeões de retenção de valor

Modelo Categoria Variação em 12 meses
Ram 3500 Picape grande +19% (valorizou)
Ram 2500 Picape grande +12% (valorizou)
Audi A3 Sportback Hatch premium +4% (valorizou)
Chevrolet Equinox SUV médio +2% (valorizou)
Porsche Taycan Elétrico acima de R$ 300 mil +2% (valorizou)
Audi A3 Sedan Sedã premium +1% (valorizou)
Toyota SW4 SUV até R$ 500 mil -3%
Renault Master Furgão comercial -3%
Toyota Hilux Picape média -4%
Fiat Strada Picape compacta -4%
Toyota Corolla híbrido Híbrido até R$ 350 mil -4%
Porsche Panamera Híbrido acima de R$ 350 mil -5%

Seis modelos fecharam o período valendo mais do que valiam. Isso não é normal e merece explicação, que vem mais adiante.

Picapes seguram valor como nenhum outro segmento

A Hilux perdeu 4% na média, mas o detalhe está nas versões: a STD Power Pack automática caiu apenas 1%, e a SRV automática, 2%.

A Strada repete o padrão. Média de 4%, com a Volcano manual em 3% e a automática em 5%.

Esse é um achado prático que quase nenhum guia menciona: **a versão intermediária costuma segurar mais valor que o topo de linha e que a de entrada**. O padrão se repete na Renault Oroch, que teve média de 9% e 6% na configuração intermediária.

A explicação é de mercado. A versão intermediária tem o equipamento que o comprador de usado procura, sem o preço que afasta na revenda.

Toyota domina, mas com uma ressalva

Hilux, SW4 e Corolla nos primeiros lugares das respectivas categorias formam um retrato claro da força da marca no usado.

Parte disso é mérito de política comercial. A Toyota oferece garantia estendida de até dez anos para quem cumpre o cronograma de revisões, o que sustenta o valor do carro documentado.

“Uma das medidas da Toyota que ajuda a explicar essa retenção de valor foi a adoção da garantia estendida de até dez anos para os proprietários que cumprem fielmente o cronograma de revisões”, registrou a Quatro Rodas sobre a SW4.

Mas há um asterisco importante no caso do Corolla. A fábrica de motores da Toyota em Porto Feliz, no interior paulista, ficou paralisada no fim de 2025.

Menos carro novo disponível empurra o preço do seminovo para cima. Ou seja, parte da retenção de valor do Corolla é escassez de oferta, não apenas demanda saudável.

O mesmo vale para as Ram, que têm fila de espera, e para o Audi A3, afetado por desabastecimento. Valorização por falta de produto é fenômeno temporário.

Elétricos desvalorizam mais? A resposta mudou

Essa é a parte que contraria o senso comum, e os dados de 2026 são categóricos.

Elétricos recentes e com boa liquidez estão entre os que MENOS desvalorizam. Na categoria de até R$ 300 mil, houve empate triplo no primeiro lugar com apenas 5% de queda:

  • Volvo EX30
  • GWM Ora 03
  • Renault Megane E-Tech

Pelo método da Webmotors, o Geely EX2 registrou 0,1% e o Leapmotor C10, 0,5%. E o Porsche Taycan valorizou 2%, com a versão Turbo S subindo 10%.

Ao mesmo tempo, o pior desempenho entre todos os 200 veículos avaliados pela Autoesporte também foi de um elétrico chinês, o JAC E-JS4, com 50,4% de perda. O Nissan Leaf, fora de linha, caiu 54,3% em dois anos.

A divisão não é entre elétrico e combustão. É entre **modelo atual com volume de vendas** e **modelo descontinuado ou de baixa liquidez**.

Everton Fernandes, presidente da Fenauto, explica a força atual: “Nós temos nesse momento uma demanda forte por veículos eletrificados e uma oferta baixa. Devido a esse desequilíbrio nessa relação oferta e demanda por veículos eletrificados, o preço está bem valorizado agora”.

Ele também dá o alerta de prazo: “Se você vender nos próximos 12 meses, muito provavelmente você vai vender bem, porque tem pouca oferta e vai ter demanda. Se você vender daqui 36 meses, vai perder um pouco mais de valor, mas não tanto. Acima de 36 meses, a expectativa é que saiam novas tecnologias”.

Quem avalia entrar nesse mercado pode ver as vantagens reais do elétrico usado. Há casos específicos já documentados, como a desvalorização do BYD Song Plus 2023 e a do Haval H6 HEV.

O fator novo de 2026: o zero km ficou mais barato

Este cruzamento não aparece em nenhum outro guia, e ele muda a conta.

Segundo estudo da Bright Consulting, o preço público médio do carro zero caiu de R$ 172,5 mil em 2025 para R$ 170 mil em junho de 2026, queda real de 1,5%. O preço efetivamente pago recuou de R$ 157,7 mil para R$ 152,1 mil, ou 3,5%.

Quando o carro novo para de subir, o usado perde referência para cima. É uma compressão que atinge todo o mercado de seminovos.

O motivo é a concorrência chinesa. No primeiro semestre de 2026, sete dos dez elétricos mais vendidos foram de marcas chinesas, e o BYD Dolphin Mini terminou como nono carro mais vendido do país, com 35.681 unidades.

Vale entender melhor por que o preço do carro zero caiu pela primeira vez em seis anos.

Os segmentos campeões por categoria

Categoria Campeão Queda
Sedã compacto Honda City Sedan 6%
Van comercial Renault Master Vitré 6%
Picape intermediária Renault Oroch 9%
SUV acima de R$ 500 mil BMW X6 e Porsche Cayenne 9%
SUV compacto Citroën Basalt 10%
Subcompacto Renault Kwid 11%
Furgão compacto Peugeot Partner 11%
SUV compacto de entrada Fiat Pulse 12%

O Honda City é tricampeão da categoria, melhorando ano a ano: caiu 18,4% em 2024, 11% em 2025 e agora 6%.

O Peugeot Partner teve a virada mais expressiva, saindo de 26% na edição anterior para 11%.

Como escolher pensando na revenda

Cinco critérios que os dados sustentam.

  1. Prefira a versão intermediária: o padrão se repete em Hilux, Strada e Oroch. Nem a mais pelada, nem a mais cara
  2. Volume de vendas importa mais que marca: modelo com frota grande tem liquidez, e liquidez sustenta preço
  3. Cuidado com modelo em fim de linha: o Nissan Leaf perdeu 54,3% em dois anos justamente por sair de linha
  4. Documentação em dia vale dinheiro: garantia estendida só vale para quem cumpriu o cronograma de revisões
  5. Câmbio manual pode segurar mais: a Strada Volcano manual caiu 3% contra 5% da automática

Na hora de comprar ou vender, acompanhar a tabela FIPE mostra a curva real do seu modelo. E antes de fechar qualquer negócio com usado, consultar a placa e checar o histórico veicular protege contra sinistro e restrição não declarados, que derrubam o valor de revenda muito mais que a depreciação natural.

Os números por trás dos estudos

Para quem quer avaliar a confiabilidade dos dados: o Melhor Revenda 2026 avaliou 213 modelos em 22 categorias, premiando 73. O Qual Comprar 2026, da Autoesporte com a Webmotors, avaliou 201 modelos em 20 categorias.

Os critérios do segundo incluem preço de compra, custos de pós-venda, desvalorização, nível de equipamentos e adequação ao segmento.

Como contexto de mercado, 2025 fechou com 18.508.929 usados comercializados, recorde da série histórica da Fenauto iniciada em 2011.

O levantamento completo está disponível no site da Quatro Rodas.

O que fica

A regra antiga dizia para comprar Toyota e fugir de elétrico se você quisesse revender bem. Metade continua valendo.

A outra metade virou: em 2026, um Volvo EX30 segurou mais valor que a média do mercado, enquanto um elétrico chinês fora de linha perdeu metade do preço. O que separa os dois não é a tecnologia, é quanta gente quer comprar aquele modelo específico daqui a três anos.