Uma Ferrari SF90 Spider se partiu em duas na Gold Coast, na Austrália, e o motorista saiu do carro por conta própria. A traseira inteira, com motor e câmbio, foi arremessada a cerca de 3,5 metros da cabine.
O ocupante único foi avaliado no local com ferimentos sem risco de morte, segundo a polícia de Queensland. Horas depois, ele mesmo postou nas redes que estava bem.
A leitura óbvia seria fragilidade. A engenharia diz o contrário, e o motivo está em um detalhe que toda a cobertura em português errou.

O que aconteceu na Gold Coast
O acidente ocorreu na Rio Vista Boulevard, em Mermaid Waters, por volta das 9h15 no horário local, no último fim de semana. Há divergência entre as fontes sobre o dia exato: publicações especializadas indicam sábado, 27 de julho, enquanto veículos australianos apontam domingo.
Segundo a polícia de Queensland, “a Ferrari Spider saiu da pista e colidiu com uma árvore”. Relatos da imprensa especializada acrescentam que o carro deixou uma rotatória e subiu a guia antes do impacto.
Não havia passageiros nem outros veículos envolvidos. O motorista é Sam Gordon, investidor do setor imobiliário e influenciador local.
Três informações não foram divulgadas e não cabe especular: a velocidade no momento do impacto, a causa definitiva e se houve autuação. A investigação segue em andamento.
Por que o carro se partiu exatamente ali
A separação não foi aleatória. Ela aconteceu na junção entre o monocoque e o subchassi traseiro.
Em superesportivos de motor central, o conjunto motor, câmbio e subchassi é parafusado à estrutura principal. Essa interface é projetada para se desacoplar sob carga extrema.
O objetivo é canalizar a energia do impacto para fora da cabine. Cada componente que se solta dissipa parte dessa energia antes que ela chegue ao ocupante.
Um detalhe registrado pela Carscoops reforça a tese: a metade dianteira ficou relativamente pouco danificada, e os airbags dispararam. A energia foi para a separação da traseira, não para o compartimento do motorista.
Zona de deformação programada: quando quebrar é o projeto
O conceito é o mesmo de qualquer carro de passeio moderno, aplicado a um contexto extremo.
Um veículo seguro não é o que resiste intacto. É o que se deforma nas regiões certas, absorvendo energia, enquanto mantém rígida a célula onde estão as pessoas.
A lógica é aritmética simples: a energia do impacto precisa ir para algum lugar. Se a estrutura não amassa, ela é transferida ao corpo do ocupante, e é isso que mata.
Em Fórmula 1, a célula de sobrevivência é dimensionada para suportar impactos de até 25 toneladas. É por isso que pilotos saem andando de acidentes em que o carro se desintegra em pedaços na pista.
O chassi da SF90 não é de fibra de carbono
Aqui está a imprecisão que se repetiu em praticamente toda a cobertura em português.
A SF90 usa um monocoque multimaterial, predominantemente de alumínio. A Ferrari empregou ligas novas, incluindo a série 7000 de alta resistência, e alumínio de baixo ruído no assoalho.
A fibra de carbono existe, mas em pontos específicos: na célula do habitáculo e na antepara traseira que separa a cabine do motor.
Segundo a própria montadora, o carbono entrou mais para adicionar rigidez torcional do que para economizar peso. O resultado foi 20% mais rigidez à flexão e 40% à torção em relação à plataforma anterior, sem ganho de massa.
Essa distinção não é preciosismo. É justamente a interface entre alumínio, carbono e subchassi parafusado que determina onde o carro se separa em um impacto desse tipo.
A bateria e o que não foi informado
A SF90 é uma híbrida plug-in, com bateria de íons de lítio de 7,9 kWh alojada na base do monocoque.
Nenhuma das fontes disponíveis relata incêndio, fumaça ou evento térmico. Também não há informação oficial sobre o comportamento do sistema de alta tensão após o impacto.
Vale explicar o mecanismo em termos gerais, sem atribuir ao caso específico. Veículos eletrificados têm circuitos que interrompem a alta tensão em colisão, isolando o pacote de baterias do resto do sistema. O pack fica na região mais protegida da estrutura precisamente porque perfuração é o cenário mais perigoso.
Se você tem interesse no assunto, vale conhecer as regras específicas de elétricos e híbridos no Brasil.
Ficha técnica da SF90
| Ferrari SF90 | |
|---|---|
| Motor | V8 4.0 biturbo + 3 motores elétricos |
| Potência combinada | 1.000 cv |
| Torque | 81,6 kgfm |
| Câmbio | Dupla embreagem, 8 marchas |
| Tração | Integral (eixo dianteiro elétrico) |
| Bateria | 7,9 kWh |
| Velocidade máxima | 340 km/h |
| Preço no Brasil | a partir de R$ 6 milhões (Stradale) |
O carro acidentado é estimado em mais de A$ 1 milhão, algo entre R$ 3,6 milhões e R$ 5,3 milhões. A versão Spider no Brasil passa de R$ 7 milhões conforme a personalização.
A reação do próprio motorista
Gordon publicou nas redes sociais horas após o acidente. Além de dizer que estava bem, creditou o desfecho ao projeto do carro.
“Um grande agradecimento à Ferrari por construir um carro insano que protege o motorista antes de tudo”, escreveu.
É um raro caso em que a percepção do envolvido coincide com o que a engenharia explica.
O que acontece com um carro assim no Brasil
Um veículo destruído nesse grau, se o sinistro ocorresse aqui, seria classificado como grande monta.
A classificação brasileira de sinistro tem três níveis, e as consequências mudam bastante entre eles.
- Pequena monta: danos leves, reparável, e o veículo volta a circular normalmente
- Média monta: danos significativos em componentes de segurança, exige laudo e vistoria para retornar à circulação
- Grande monta: considerado irrecuperável, vai a leilão de sucata e só pode ser adquirido por pessoa jurídica credenciada no Detran
Um carro de grande monta não pode voltar a circular como veículo comum. O registro de sinistro derruba o valor de mercado entre 20% e 40% abaixo da tabela de referência.
Por que isso interessa a quem compra usado
Existe um risco concreto no mercado brasileiro: veículo sinistrado, aqui ou no exterior, sendo recuperado de forma irregular e revendido sem que o comprador saiba.
A proteção é documental. O histórico veicular mostra registro de sinistro, passagem por leilão e restrições, e consultar a placa antes de fechar negócio revela o que o vendedor pode omitir.
Comparar com a tabela FIPE ajuda a detectar o sinal mais óbvio: preço muito abaixo do mercado quase sempre tem explicação, e raramente é generosidade do vendedor.
Vale conhecer também o alerta sobre airbags falsos no mercado de usados, problema diretamente ligado a carros reparados de forma precária.
Quem acompanha leilões de veículos sabe que a origem do lote muda tudo na avaliação.
A lição que sobra
Duas observações de contexto. Existe outro acidente circulando nas buscas, na Califórnia, também com uma Ferrari partida ao meio, mas com vítima fatal. São casos distintos e não devem ser confundidos.
E parte da imprensa lembrou de um episódio de 2006, com outro Ferrari de motor central que se separou de forma semelhante. Vinte anos depois, o padrão de comportamento estrutural se repetiu.
É contraintuitivo torcer para que um carro de R$ 5 milhões se desmonte, mas foi exatamente isso que precisava acontecer. A parte que importava, aquela ao redor do motorista, ficou inteira. E é assim que se mede segurança automotiva, não pela quantidade de lataria que sobra na foto.
