A nova lei do setor elétrico entrou no radar de quem tem carro elétrico ou híbrido plug-in porque ela mexe no ponto mais sensível do uso diário: a recarga. A seguir, você vê o que já vale hoje, o que ainda depende de regulamentação e onde a conta de luz realmente pode cair.
O resumo é simples. A lei abre caminho para mais escolha e mais flexibilidade, mas a economia não nasce sozinha. Ela depende do horário em que você carrega, da tarifa usada e do tipo de contrato de energia.
A lei abriu a porta, mas não barateia tudo sozinha
A Lei nº 15.269/2025, sancionada em novembro de 2025, foi tratada no setor como a maior reforma elétrica desde 2004. No papel, ela acelera a abertura do mercado livre para consumidores menores.
O cronograma citado no mercado é este: pequenos negócios e comércios a partir de novembro de 2027; residências até novembro de 2028. Parece ótimo. Só que a vida real é mais chata que o anúncio.
Hoje, a maioria dos donos de elétrico ainda recarrega no mercado cativo. É a conta tradicional da distribuidora, com energia, encargos, tributos, bandeiras e custos de rede tudo misturado na mesma fatura.
| Quem entra primeiro | Janela prevista | Efeito para a recarga |
|---|---|---|
| Pequenos negócios e comércios | Novembro de 2027 | Mais espaço para negociar energia de eletropostos e frotas leves |
| Residências | Até novembro de 2028 | Possibilidade de escolher fornecedor, se a regulamentação andar |
Em bom português: a lei cria a avenida, mas quem vai desenhar as faixas é a ANEEL. E isso faz toda a diferença na conta de quem carrega um BYD Dolphin, um GWM Ora 03 ou um Volvo EX30 na garagem.

Tarifa Branca já muda a conta em 2026
Antes de pensar em mercado livre, tem uma ferramenta que já existe hoje. A Tarifa Branca cobra valores diferentes conforme o horário do consumo. Em geral, a madrugada custa menos e o horário de ponta custa mais.
Para carro elétrico, isso faz sentido imediato. A recarga é previsível, pode ser programada e quase sempre acontece com o carro parado. É uma das poucas cargas da casa que aceitam esse tipo de disciplina sem drama.
Mas tem pegadinha. Se a sua casa concentra consumo pesado no pico, a conta pode piorar. Chuveiro, ar-condicionado, forno elétrico e carro plugado às 19h viram receita para susto.
As regras da modalidade estão publicadas pela ANEEL. Antes de migrar, o certo é pedir simulação com a distribuidora e olhar seu histórico de consumo.
Quanto custa rodar 100 km com a recarga
Vamos ao número que interessa. Usando um consumo médio de 15 kWh a cada 100 km, a recarga residencial no mercado cativo fica entre R$ 10,50 e R$ 14,25 por 100 km, considerando tarifas de R$ 0,70 a R$ 0,95 por kWh.
No discurso do mercado livre, aparece um valor bem menor para a energia: de R$ 0,25 a R$ 0,45 por kWh. Só que isso não é a conta final da tomada. Entram uso da rede, encargos e gestão contratual.
| Cenário | Preço de referência | Gasto de energia em 100 km* |
|---|---|---|
| Recarga residencial no mercado cativo | R$ 0,70/kWh | R$ 10,50 |
| Recarga residencial no mercado cativo | R$ 0,95/kWh | R$ 14,25 |
| Energia negociada no mercado livre** | R$ 0,25/kWh | R$ 3,75 |
| Energia negociada no mercado livre** | R$ 0,45/kWh | R$ 6,75 |
*Conta feita com consumo médio de 15 kWh/100 km. **No mercado livre, o custo final não se resume ao preço puro da energia.
Então qualquer dono de elétrico vai pagar metade da conta? Não. Quem roda pouco por mês ou depende quase sempre de eletroposto público caro pode sentir uma diferença bem menor do que a propaganda sugere.
Quem ganha mais com a abertura do mercado livre
O maior efeito prático deve aparecer primeiro fora da garagem de casa. Frotas, eletropostos, condomínios com carga elevada e empresas com consumo previsível tendem a aproveitar melhor contratos negociados.
Táxi elétrico, carro de aplicativo, logística urbana e vans de entrega entram nesse pacote. Se a operação roda muito e recarrega todo dia, alguns centavos por kWh viram dinheiro de verdade no fim do mês.
Para o dono de um híbrido plug-in, o raciocínio é parecido. A bateria menor limita a economia total, mas a lógica da recarga noturna continua funcionando. Quem usa o carro como se fosse flex e nunca pluga, claro, fica fora do jogo.
Condomínio merece cuidado extra. Ali, a discussão não é só tarifa. Medição individual, rateio, reforço de infraestrutura e limite de demanda ainda são o gargalo mais comum em 2026.
V2G e Open Energy ainda estão mais no debate do que na rua
Tem outra camada nessa história: V2G, V2H e Open Energy. Em teoria, o carro poderia virar bateria da casa ou até devolver energia para a rede em horários críticos.
Bonito no slide. Na rua, ainda é raro.
O Brasil já discute essas frentes, mas a adoção comercial segue limitada. Faltam mais carros compatíveis, mais carregadores adequados e, principalmente, regra clara para remuneração ampla desse serviço.
Ou seja: contar com o carro elétrico como fonte de renda energética em 2026 ainda é aposta. O ganho real, hoje, vem da recarga inteligente, do horário bem escolhido e, para alguns perfis, da combinação com energia solar.
O relógio da recarga virou peça-chave
A maior lição dessa reforma não está no nome da lei. Está no relógio. Carregar de madrugada, fugir do pico e entender a tarifa da sua distribuidora pesa mais no bolso do que muita promessa de mercado livre feita às pressas.
Até novembro de 2028, quando as residências devem entrar de vez nessa abertura, o dono de carro elétrico já tem um dever de casa claro: descobrir quanto custa cada kWh na própria rotina. Porque a próxima disputa não será só entre BYD, GWM e Volvo — será entre quem vende a recarga mais barata na sua tomada.
