Projeto quer acabar com a taxa de licenciamento veicular: entenda o PL 310/2026

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Fachada do Congresso Nacional em Brasília, onde tramita o PL 310/2026

Um projeto de lei apresentado no Senado Federal quer acabar de vez com a cobrança da taxa de licenciamento veicular no Brasil. O PL 310/2026, de autoria do senador Cleitinho (Republicanos-MG), propõe que o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV) seja emitido exclusivamente em formato digital — e sem nenhum custo para o proprietário. Se aprovado, motoristas de todo o país deixariam de pagar uma taxa que hoje varia de R$ 35,62 (Minas Gerais) a R$ 288,08 (Pará), uma diferença de mais de 8 vezes entre estados.

Motorista segurando smartphone no volante do carro para acessar CRLV digital

O que propõe o PL 310/2026

O Projeto de Lei 310/2026 altera a Lei nº 9.503/1997 (Código de Trânsito Brasileiro) em dois pontos centrais:

  • Proíbe a cobrança de taxa, tarifa ou preço público pela emissão do Certificado de Licenciamento Anual (CRLV);
  • Determina que o CRLV seja expedido exclusivamente em formato digital, ficando disponível para download e impressão pelo próprio proprietário do veículo.

Na prática, isso significa que o licenciamento continuaria sendo obrigatório — todo veículo precisa estar licenciado para circular —, mas o motorista não pagaria mais nada pela emissão do documento em si. A obrigação de quitar o IPVA, eventuais multas e o seguro obrigatório (quando aplicável) continuaria existindo como pré-requisito para o licenciamento.

O senador Cleitinho justifica a proposta com um argumento direto: “O brasileiro já paga IPVA, paga seguro obrigatório quando há, paga taxa de registro. Não é justo cobrar mais uma taxa só para emitir um documento que hoje é digital”.

Quanto cada estado cobra pelo licenciamento em 2026

Um dos pontos mais polêmicos do debate é a enorme disparidade de valores entre os estados. Enquanto Minas Gerais cobra R$ 35,62, o Pará cobra R$ 288,08 — quase oito vezes mais pelo mesmo serviço. A tabela abaixo mostra os valores atualizados para 2026:

Estado Taxa (R$) Prazo
Acre (AC) 200,25 Até 31/03
Alagoas (AL) 36,03 Fev–Jun (escalonado)
Amapá (AP) 128,54 Até 31/08
Amazonas (AM) 122,88 Até março
Bahia (BA) 173,50 Mar–Nov (escalonado)
Distrito Federal (DF) 102,00 Até fevereiro
Espírito Santo (ES) 237,04 Mar–Abr
Goiás (GO) 251,25 Set–Out
Mato Grosso (MT) 140,00 Mar–Mai
Mato Grosso do Sul (MS) 235,28 Até 31/03
Minas Gerais (MG) 35,62 Jun–Ago
Pará (PA) 288,08 A partir de março
Paraíba (PB) 206,55 Até 31/03
Paraná (PR) 90,94 Até abril
Pernambuco (PE) 150,00 Até 31/03
Piauí (PI) 129,60 Até 31/03
Rio de Janeiro (RJ) 281,29 Jun–Out
Rio Grande do Sul (RS) 109,27 Abr–Jul
Rondônia (RO) 220,41 Até março
Roraima (RR) 133,42–205,25 Até 31/03
Santa Catarina (SC) 149,37 Até 31/03
São Paulo (SP) 174,08 Jul–Dez
Sergipe (SE) 207,36 Até março
Tocantins (TO) 79,63 Até março

A disparidade fica ainda mais evidente quando se compara estados vizinhos: no Sudeste, Minas Gerais cobra R$ 35,62 enquanto o Espírito Santo cobra R$ 237,04 — mais de seis vezes o valor mineiro. Essa diferença existe porque cada Detran estadual define sua própria taxa, sem um teto federal.

Rua com carros estacionados em cidade brasileira, trânsito urbano

Por que a cobrança é considerada obsoleta

O argumento central do PL 310/2026 é simples: se o CRLV já é digital, por que continuar cobrando por ele? O senador Cleitinho afirma que “manter a cobrança de um serviço que se tornou automatizado configura enriquecimento indevido” da administração pública.

E o argumento tem base. Desde 2021, o CRLV passou a ser emitido exclusivamente em formato digital na maioria dos estados. O documento pode ser acessado pelo aplicativo Carteira Digital de Trânsito (CDT) ou pelo portal do Detran de cada estado. Não há mais impressão física enviada pelos Correios, não há mais papel timbrado com selo de segurança — apenas um arquivo PDF com QR Code para validação.

Antes da digitalização, a taxa cobria custos reais: impressão do documento, envio postal, logística de distribuição. Com a migração para o digital, esses custos praticamente desapareceram. O que restou, na visão do autor do projeto, é uma cobrança sem contrapartida proporcional.

O cenário é semelhante ao que aconteceu com a CNH digital: a versão eletrônica do documento reduziu custos operacionais, mas as taxas cobradas pelos Detrans não acompanharam essa redução na mesma proporção.

Como funciona o licenciamento veicular hoje

Para entender o que o projeto muda, vale explicar como funciona o processo atual. O licenciamento é uma obrigação anual de todo proprietário de veículo no Brasil. Sem ele, o carro, moto ou caminhão não pode circular legalmente.

Passo a passo do licenciamento

  1. Quitar o IPVA — o imposto estadual sobre veículos precisa estar pago ou parcelado;
  2. Pagar multas pendentes — qualquer infração de trânsito vinculada ao veículo deve ser quitada;
  3. Realizar a inspeção veicular (quando exigida pelo estado) — alguns estados exigem vistoria técnica;
  4. Pagar a taxa de licenciamento — o valor definido pelo Detran do estado (é essa taxa que o PL quer eliminar);
  5. Emitir o CRLV digital — após a compensação do pagamento, o documento fica disponível no app CDT ou no site do Detran.

O CRLV é o documento que comprova que o veículo está regularizado para circular. Ele é vinculado ao RENAVAM (Registro Nacional de Veículos Automotores) e contém dados como placa, chassi, nome do proprietário e data de validade do licenciamento.

Smartphone com aplicativo de navegação fixado no painel do carro

O que muda na prática se o projeto for aprovado

Se o PL 310/2026 for aprovado e sancionado, as mudanças práticas para o motorista seriam:

  • Fim da taxa de licenciamento — o passo 4 do processo descrito acima simplesmente deixaria de existir. O proprietário continuaria precisando quitar IPVA e multas, mas não pagaria mais pela emissão do CRLV;
  • CRLV exclusivamente digital — isso já é a realidade na maioria dos estados, mas o projeto formalizaria essa obrigatoriedade em lei federal;
  • Download e impressão pelo proprietário — quem preferir ter uma cópia impressa poderia imprimir em casa, sem custo adicional.

É importante destacar: o licenciamento em si continuaria obrigatório. O que acabaria é apenas a taxa cobrada pelo serviço de emissão do documento. Circular sem licenciamento continuaria sendo infração gravíssima, com multa de R$ 293,47, 7 pontos na CNH e apreensão do veículo.

Impacto financeiro para os estados

Um ponto que nenhum artigo sobre o tema costuma abordar: quanto os Detrans perderiam de arrecadação? O Brasil tem uma frota de aproximadamente 120 milhões de veículos registrados. Considerando uma taxa média de R$ 160,00 e que nem todos os veículos são licenciados anualmente (parte da frota está inativa), a arrecadação com taxas de licenciamento pode chegar a bilhões de reais por ano em todo o país.

Para estados como Pará (R$ 288,08), Goiás (R$ 251,25) e Rio de Janeiro (R$ 281,29), essa receita é significativa no orçamento dos Detrans. É previsível que haja resistência dos governos estaduais à aprovação do projeto, já que a perda de receita precisaria ser compensada de alguma forma.

Notas de cem reais brasileiros espalhadas, custo do licenciamento veicular

Onde está a tramitação do PL 310/2026

Até o momento (março de 2026), o projeto está na seguinte situação:

Etapa Status
Apresentação no Senado Concluída (04/02/2026)
Despacho para comissões Aguardando despacho
Comissões temáticas do Senado Pendente
Plenário do Senado Pendente
Câmara dos Deputados Pendente
Sanção presidencial Pendente

O projeto ainda está no início da tramitação. Não há relator designado nem previsão de votação. Projetos de lei no Senado costumam passar por pelo menos duas comissões temáticas antes de ir a plenário. Se aprovado no Senado, segue para a Câmara dos Deputados, onde passa por processo semelhante. Só então vai à sanção (ou veto) do presidente da República.

Na prática, mesmo no cenário mais otimista, a aprovação levaria vários meses. É importante que o motorista não deixe de pagar o licenciamento 2026 esperando a aprovação do projeto — a multa por circular sem licenciamento (R$ 293,47 + 7 pontos + apreensão) é bem mais cara que a própria taxa.

Quanto o motorista gasta para manter o carro regularizado

A taxa de licenciamento é apenas uma das várias cobranças que o proprietário de veículo enfrenta anualmente no Brasil. Para ter uma visão completa, veja o custo anual típico para um carro popular (ex: Fiat Argo 1.0 2023 em São Paulo):

Item Valor estimado (R$)
IPVA (4% do valor FIPE em SP) ~2.400,00
Taxa de licenciamento 174,08
Seguro obrigatório (DPVAT/SPVAT) ~50,00
Total anual ~2.624,08

Nesse exemplo, a taxa de licenciamento representa cerca de 6,6% do custo total. Não é o maior vilão do bolso do motorista — esse papel cabe ao IPVA —, mas é a cobrança que, segundo o autor do projeto, “não tem mais justificativa técnica depois da digitalização”.

Se você quer saber se o IPVA do seu veículo já foi quitado, confira nosso guia sobre como consultar o IPVA quitado. E para quem precisa declarar o carro no Imposto de Renda, temos um passo a passo completo.

O licenciamento vai deixar de ser obrigatório?

Não. Esse é um ponto de confusão gerado por títulos sensacionalistas como “Fim do licenciamento veicular”. O PL 310/2026 não acaba com o licenciamento — acaba com a taxa cobrada pela emissão do CRLV.

A diferença é fundamental:

  • Licenciamento = obrigação legal de manter o veículo regularizado (continua existindo);
  • Taxa de licenciamento = valor cobrado pelo Detran para emitir o CRLV (é isso que o projeto quer eliminar).

Mesmo que o projeto seja aprovado, o motorista continuará precisando quitar IPVA e multas para que o veículo seja considerado licenciado. A única mudança é que não haveria mais uma taxa adicional pela emissão do documento.

Quem circular com o licenciamento vencido continuará sujeito às mesmas penalidades de hoje: multa gravíssima de R$ 293,47, 7 pontos na CNH e remoção do veículo ao pátio do Detran. Se precisar consultar a situação do seu veículo pela placa, é possível verificar pendências antes de rodar.

Projetos anteriores com propostas semelhantes

O PL 310/2026 não é a primeira tentativa de acabar com a taxa de licenciamento. Em 2023, outro projeto de lei com proposta semelhante foi apresentado no Senado, mas não avançou na tramitação. A recorrência dessas propostas indica que há demanda política e popular pelo tema, mas a resistência dos estados — que perderiam receita — tem sido um obstáculo consistente.

Além do Senado, a discussão também existe em nível estadual. Alguns estados já reduziram significativamente suas taxas nos últimos anos. Minas Gerais, por exemplo, cobra apenas R$ 35,62, um dos menores valores do país, enquanto estados como Alagoas cobram R$ 36,03 — valores que mal cobrem o custo de manutenção do sistema.

Perguntas frequentes

O PL 310/2026 acaba com o licenciamento veicular?

Não. O projeto acaba com a taxa cobrada pela emissão do CRLV, não com a obrigatoriedade do licenciamento. Todo veículo continuará precisando estar licenciado para circular.

Quem é o autor do projeto de lei?

O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), que argumenta que a digitalização do CRLV tornou a cobrança da taxa injustificável.

Quando o projeto será votado?

Ainda não há previsão. O PL 310/2026 está aguardando despacho para as comissões temáticas do Senado. Depois disso, precisa ser aprovado no plenário do Senado, na Câmara dos Deputados e receber sanção presidencial.

Devo deixar de pagar o licenciamento 2026 esperando a aprovação?

Definitivamente não. O projeto ainda está no início da tramitação e pode levar meses ou anos para ser aprovado — se for aprovado. Circular sem licenciamento é infração gravíssima: multa de R$ 293,47, 7 pontos na CNH e apreensão do veículo.

Qual estado cobra a taxa de licenciamento mais cara?

O Pará (PA), com R$ 288,08 em 2026, seguido pelo Rio de Janeiro (RJ) com R$ 281,29 e Goiás (GO) com R$ 251,25.

Qual estado cobra a taxa mais barata?

Minas Gerais (MG), com R$ 35,62, seguido por Alagoas (AL) com R$ 36,03 e Tocantins (TO) com R$ 79,63.

O CRLV vai se tornar 100% digital?

Na prática, já é digital na maioria dos estados desde 2021. O PL 310/2026 apenas formalizaria essa obrigatoriedade em lei federal, garantindo que o proprietário possa fazer download e impressão sem custo.

Fonte oficial: PL 310/2026 — Senado Federal

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