Os carros mais furtados ou roubados em São Paulo no 1º trimestre de 2026 puxam um retrato bem brasileiro: hatch compacto, frota enorme e peça circulando fácil. O Hyundai HB20 ficou na frente, mas o ranking inteiro diz mais sobre mercado do que muita gente imagina.
Na lista divulgada para o estado, três nomes dominaram o topo: HB20, Ford Ka e Chevrolet Onix. Abaixo, você vê a ordem decrescente, os números do trimestre e o que realmente pesa por trás deles.
| Posição | Modelo | Ocorrências | Leitura rápida |
|---|---|---|---|
| 3 | Chevrolet Onix | 471 | Hatch de frota grande, peça farta e uso urbano intenso |
| 2 | Ford Ka | 491 | Mesmo fora de linha, segue muito presente nas ruas e no mercado de peças |
| 1 | Hyundai HB20 | 498 | Lidera o trimestre e mantém uma tendência já vista em levantamentos recentes |
Antes de olhar carro por carro, um aviso importante. Ranking de furto e roubo não é selo de carro ruim. Ele costuma refletir exposição, liquidez e volume de unidades rodando nas ruas.
Também tem o recorte da idade. Os veículos com mais de 10 anos concentraram 4.222 ocorrências no trimestre. É muita coisa. E ajuda a explicar por que usados populares aparecem tanto.
O retrato do trimestre em São Paulo
O levantamento usado no mercado veio do cruzamento entre dados da Ituran e registros públicos da segurança paulista. As estatísticas oficiais da SSP-SP ajudam a sustentar esse mapa do trimestre.
Terça-feira foi o pior dia, com 1.955 ocorrências. Quarta veio logo atrás, com 1.944. Não é coincidência banal. É padrão operacional, rotina de rua e carro popular ficando mais exposto em deslocamento de trabalho.
Quinta somou 1.569 casos. Sexta, 1.534. Segunda ficou em 1.313, enquanto sábado e domingo recuaram para 1.001 e 953. O meio da semana virou o trecho mais pesado da conta.
A idade da frota também chama atenção. Depois dos carros com mais de 10 anos, vieram os de 5 a 10 anos, com 3.898 ocorrências. Entre 2 e 5 anos, o número cai para 1.899.
Até 2 anos de uso? Só 592 casos. Seguro mais ativo, rastreador, garagem e perfil de uso ajudam. Mas o principal é outro: carro mais novo ainda circula menos em volume absoluto do que compactos populares antigos.
Compensa olhar só o nome do modelo? Nem tanto. Um HB20 ou um Onix vendido aos montes em São Paulo inevitavelmente aparece mais. Quando a frota é gigante, o risco bruto sobe junto.
3. Chevrolet Onix

O Chevrolet Onix fechou o trimestre com 471 ocorrências e ficou na terceira posição. Não é pouco. Ainda mais para um carro que passou anos entre os líderes de vendas e espalhou uma frota enorme pelo país.
Tem outro detalhe. O Onix rodou e ainda roda muito em app, locadora, uso familiar e pequenas frotas. Quanto mais carro na rua, mais exposição. Some a isso a oferta ampla de peças e o resultado aparece rápido no ranking.
Para o dono, sem ser simplista. Não quer dizer que o Onix seja inseguro por projeto. Quer dizer que ele é fácil de encontrar, fácil de revender como usado e conhecido demais no mercado paralelo.
2. Ford Ka

O Ford Ka terminou o 1º trimestre com 491 ocorrências. Ficou atrás do HB20 por muito pouco. Mesmo fora de linha há anos, ele continua fortíssimo na frota usada, especialmente nas capitais e regiões metropolitanas.
A saída da Ford da produção nacional não tirou o Ka das ruas. Pelo contrário. Muita unidade segue rodando em serviço, trajeto urbano pesado e uso diário sem garagem fixa. A peça continua girando, e isso pesa.
É um caso clássico. O carro some do zero km, mas continua vivo no mercado real. Quando há muita unidade envelhecendo ao mesmo tempo, com manutenção paralela comum, o interesse de quadrilhas e desmanches não desaparece.
1. Hyundai HB20

O Hyundai HB20 liderou o ranking do 1º trimestre de 2026 em São Paulo, com 498 ocorrências. A diferença para o Ka foi mínima, só sete casos. Ainda assim, liderança é liderança, e o nome dele voltou ao topo.
Não foi um pico isolado. Em levantamento mais amplo da Grande São Paulo ao longo de 2025, o HB20 também apareceu na frente, com 1.295 ocorrências. Quando o mesmo carro repete esse padrão, a tendência deixa de ser casual.
Isso conversa com o próprio sucesso comercial do modelo. Lançado em 2012, o HB20 virou presença diária em garagem, app e uso urbano. Na linha recente, apareceu de cerca de R$ 68.594 a R$ 96.251 nas versões citadas.
Muito volume de rua, muita peça no mercado
HB20, Ka e Onix têm perfis diferentes de marca e geração. O ponto comum é outro. São compactos populares, vendidos em números altos e fáceis de manter fora da rede. Essa combinação costuma aparecer nesses rankings.
Não é glamour. É planilha de rua. Carro popular circula mais, para mais em via pública, roda mais em bairro residencial e comercial e troca de dono com facilidade. O crime olha para isso sem romantismo nenhum.
Peça disponível também entra na conta. Modelo com grande circulação cria ecossistema de oficina, desmanche irregular e reposição paralela. O dono gosta porque a manutenção tende a ser menos complicada. O problema é o outro lado disso.
Tem ainda a liquidez do usado. Um hatch compacto conhecido vende rápido, tem procura constante e não assusta oficina independente. Esse pacote ajuda a explicar por que alguns nomes reaparecem ano após ano.
Mas será que a liderança do HB20 significa risco disparado? Não. O topo foi apertado. Foram 498 casos contra 491 do Ka e 471 do Onix. O primeiro lugar existe, mas o pelotão está embolado.
Esse detalhe muda a leitura. Não é um modelo isolado e vulnerável contra dois carros tranquilos. É um grupo de populares urbanos, com frota grande e exposição semelhante, brigando por poucos pontos de diferença.
Terça e quarta viraram o miolo mais pesado
Os dias da semana contam uma parte da história que quase sempre passa batida. Terça somou 1.955 ocorrências. Quarta marcou 1.944. A diferença foi de apenas 11 casos. Praticamente empate técnico.
Fim de semana ficou bem abaixo. Domingo registrou 953 casos, menos da metade do pior dia. Parece contraintuitivo para quem imagina crime concentrado na madrugada de lazer. Na prática, rotina de deslocamento pesa mais.
Carro popular vive na rua de segunda a sexta. Vai para trabalho, escola, entrega, consulta e aplicativo. Fica parado em frente de comércio, estação, clínica e prédio antigo sem vaga. Esse uso intenso aumenta a janela de risco.
Quem trabalha com frota ou app deveria prestar atenção nisso. O recorte por dia ajuda a decidir escala, estacionamento e até contratação de cobertura mais ampla. Ninguém escolhe o crime, mas dá para reduzir exposição.
Também vale olhar o horário de hábito, não só o bairro. O carro que pernoita em garagem e passa o dia inteiro na rua pode estar mais vulnerável do que o que roda menos, mesmo em região considerada melhor.
Na ponta do lápis, o meio da semana concentrou quase 3.900 casos em apenas dois dias. Isso muda conversa com seguradora, com motorista de app e com dono que ainda insiste em deixar o carro sempre na rua.
Idade do carro pesa, e pesa muito
O recorte por faixa etária é o pedaço mais útil para o dono comum. Carros com mais de 10 anos somaram 4.222 ocorrências. É a maior faixa do trimestre. A segunda pior, de 5 a 10 anos, ficou logo atrás.
Isso bate com a realidade paulista. Boa parte da frota circulante já envelheceu, especialmente entre hatches compactos. E carro mais antigo costuma rodar sem rastreador, sem seguro total e, muitas vezes, dormindo fora de garagem.
Tem mais. A manutenção paralela cresce com a idade do veículo. Isso amplia a procura por componentes usados e facilita o giro de peças conhecidas. Em modelos de grande volume, esse ciclo se fecha com rapidez.
Até 2 anos, o número cai para 592 casos. Não é blindagem mágica. É outro perfil de uso e posse. Em geral, carro novo tem financiamento, seguro, monitoramento e dono mais cauteloso com estacionamento.
Se você tem um HB20, Ka ou Onix mais antigo, o alerta é maior do que para quem está com um zero km. O ranking do trimestre reforça justamente isso: a idade do carro pesa quase tanto quanto o emblema.
Faz diferença até na aceitação do seguro. Em várias regiões de São Paulo, um compacto com mais de uma década de uso pode enfrentar prêmio alto ou cobertura mais limitada. O mercado lê estatística o tempo inteiro.
O ranking também conversa com seguro e revenda
Seguro reage a padrão. Quando um modelo aparece repetidamente entre os mais visados, a conta muda. Franquia, prêmio e exigência de rastreador podem subir conforme CEP, perfil do motorista e idade do carro.
No HB20, isso ganha força porque o modelo é muito procurado no mercado de usados. O lado bom é revenda fácil. O lado ruim é simples: carro fácil de vender também chama atenção de quem vive da ilegalidade.
O Ka enfrenta um cenário parecido. Como não existe mais zero km, muita gente parte para o usado barato. Isso sustenta procura, reparo independente e circulação alta. O carro envelhece, mas continua visível no mapa urbano.
Já o Onix carrega o peso da própria popularidade. Durante anos, foi quase onipresente em rua, app e locadora. O mercado adora volume. O crime, infelizmente, também.
Isso derruba a revenda? Não de forma automática. Popular bem cuidado continua vendendo. Só que o comprador mais atento hoje pergunta de seguro, pergunta de rastreador e pergunta onde o carro dorme. Não é paranoia. É custo real.
Para quem compra usado em São Paulo, não basta olhar preço e consumo. Se o carro está no topo dos furtos e roubos, a despesa anual pode escapar pela porta do seguro. E ninguém lembra disso na hora do anúncio.
O dono precisa mudar a rotina?
Sim, especialmente se o carro passa muito tempo na rua. Rastreador ajuda. Trava e alarme em dia também. Parece básico, mas carro popular antigo vive com manutenção adiada, e o ladrão percebe esse descuido mais rápido do que parece.
Outro ponto prático é o estacionamento. Deixar o carro sempre nos mesmos lugares, nos mesmos horários, cria padrão. Em cidade grande, padrão ruim vira convite. Quem consegue variar rota e ponto de parada reduz exposição.
Cobertura de furto e roubo merece atenção separada. Muita apólice barata corta exatamente o que mais importa no uso urbano pesado. Antes de renovar, vale olhar rastreador exigido, franquia e percentual de indenização.
No HB20 recente, o apelo de consumo e preço continua forte. O 1.0 aspirado faz até 12,8 km/l na cidade com gasolina, e o turbo entrega 120 cv. É um carro fácil de gostar. Justamente por isso, ele circula muito.
Esse é o paradoxo do popular bem aceito. Ele agrada oficina, dono, motorista de app e comprador de usado. Funciona. Só que toda essa familiaridade também empurra o modelo para o radar do crime urbano.
Terça e quarta somaram 3.899 ocorrências no trimestre. Quase 4 mil casos em dois dias da semana. O HB20 ficou na frente por sete registros sobre o Ka — diferença pequena demais para qualquer dono dormir tranquilo.
