Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil?

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Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil?
Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil? — vista completa (Foto: Cpten)

Carro elétrico ainda desperta interesse no Brasil, mas a compra trava na hora de olhar a rotina real. Pesquisa da EY mostra que 39% dos brasileiros pensam em adiar ou reconsiderar a compra, enquanto 11% já desistiram; neste artigo, a gente abre os números e mostra por que a tomada pesa mais que o preço.

Não é rejeição ao elétrico. É medo de comprar um carro moderno e viver como se estivesse em 2012, caçando onde carregar.

Preço incomoda, tomada decide

A 6ª edição do Índice de Mobilidade do Consumidor, da EY, ouviu 1.000 consumidores no Brasil. No recorte global, foram 21 mil entrevistados em 32 países.

O retrato brasileiro é bem claro. Só 46% mantêm o plano de comprar um elétrico sem mudar nada.

O que segura a compra Percentual
Falta de recarga em casa ou no trabalho 36%
Ausência de estações públicas 33%
Medo do custo de troca da bateria 28%
Preço inicial do carro 28%
Desconfiança na qualidade dos carregadores públicos 27%
Receio de reparo mais caro 21%
Dúvidas sobre autonomia e custo da recarga 17%

Repare na ordem. O preço aparece forte, mas não lidera.

O topo da lista fala de uso, não de desejo. O brasileiro até quer o elétrico, mas quer saber onde vai plugar o carro na segunda-feira.

Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil?
Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil? (Reprodução)

Tem lógica. Quem mora em casa e tem garagem privativa resolve metade do problema no dia da compra.

Já quem vive em condomínio entra em outra novela. Precisa de aprovação, checagem da rede do prédio, adequação técnica e, às vezes, obra na vaga.

Condomínio virou filtro da compra

Essa é a parte que pouca propaganda mostra. O carro pode estar na concessionária, mas a infraestrutura nem sempre está na sua vaga.

Mora em apartamento antigo? A compra deixa de ser só financeira e vira uma conta de conveniência, tempo e paciência.

Quem depende de recarga pública sente outro tipo de insegurança. Não basta existir eletroposto no mapa; ele precisa funcionar, estar livre e entregar potência de verdade.

Os 27% que desconfiam da qualidade dos carregadores públicos falam disso. Na prática, é o medo de chegar com pouca bateria e encontrar fila, equipamento inoperante ou carga lenta demais.

Na cidade, ainda dá para contornar. No interior e fora dos grandes corredores rodoviários, a história muda rápido.

O Brasil melhorou sua rede pública de recarga, mas ela segue concentrada em capitais, eixos de maior renda e rotas específicas. Fora desse mapa, o elétrico ainda exige planejamento que carro flex nunca exigiu.

Quem adiou não desistiu da eletrificação

A mesma pesquisa mostra um detalhe importante. Muita gente ainda quer entrar nesse mundo.

O que mantém o interesse no elétrico Percentual
Custo dos combustíveis 38%
Preocupação ambiental 38%
Busca por maior autonomia 30%
Menor custo total de uso 29%
Desempenho 28%
Facilidade de manutenção 25%
Incentivos financeiros 20%
Oferta crescente de modelos 16%

Ou seja: a barreira é operacional. Não é birra com tecnologia.

Combustível caro empurra o consumidor para a eletrificação. O problema é que abastecer gasolina continua mais simples do que planejar recarga para muita gente.

Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil?
Por que 39% adiam comprar carro elétrico no Brasil? em detalhe (Foto: Jkcarros)

Também existe uma ansiedade difícil de ignorar. Bateria, autonomia real, valor de revenda, seguro e manutenção ainda rondam a cabeça de quem está saindo do carro a combustão.

Os 28% que temem a troca da bateria mostram bem isso. O consumidor não quer só tecnologia nova; ele quer previsibilidade.

Faz sentido. No Brasil, revenda e disponibilidade de peça pesam quase tanto quanto consumo.

O mercado já se mexeu, mas o consumidor foi pela rota do meio

Nos relatórios de emplacamentos da Fenabrave e nos balanços da Anfavea, os eletrificados seguem avançando. Só que o grosso do mercado brasileiro ainda está longe do elétrico puro.

Quem puxa a fila hoje? Entre os elétricos, a BYD virou a principal referência comercial no país, muito embalada por Dolphin Mini, Dolphin e Yuan Plus.

Mas o movimento mais revelador está no meio do caminho. Híbridos e híbridos plug-in viraram a porta de entrada de quem quer gastar menos combustível sem depender de tomada todo dia.

É aí que entram Toyota Corolla Hybrid, Corolla Cross Hybrid, Honda Civic e:HEV, BYD Song Plus DM-i e GWM Haval H6 PHEV. Eles capturam o comprador que ainda não topou ir direto para um BYD Dolphin, um Ora 03 ou um Volvo EX30.

Essa migração é bem brasileira. O consumidor aceita eletrificação, mas prefere uma escada, não um salto.

o híbrido resolve uma angústia central: você testa parte da promessa de economia sem virar dependente da infraestrutura pública. É menos ruptura.

Quando o elétrico fecha a conta — e quando não fecha

Quem roda quase só na cidade, tem garagem e consegue recarregar em casa ou no trabalho está no cenário ideal. A economia com energia e a manutenção mais simples começam a fazer sentido bem cedo.

Agora mude o endereço. Apartamento sem estrutura, rotina imprevisível, viagens frequentes e interior com pouca recarga pública.

Nesse caso, o elétrico pode até continuar desejado, mas perde força na conta mental do comprador. Ele deixa de comparar só preço de compra e passa a comparar dor de cabeça.

Tem mais um ponto pouco falado. A autonomia homologada não é a autonomia da vida real.

Ar-condicionado ligado, serra, trânsito pesado e estrada a 110 km/h mudam o jogo do consumo de energia. Para quem nunca teve elétrico, isso pesa bastante na decisão.

Por isso os 17% que citam dúvidas sobre autonomia e custo da recarga não são um grupo pequeno. Eles representam o comprador racional, que quer evitar arrependimento caro.

O recado para as marcas é simples: vender carro não basta

Montadora que quiser crescer no elétrico no Brasil precisa vender ecossistema. Isso inclui rede de recarga confiável, instalação residencial clara, suporte ao condomínio e pós-venda que explique bateria sem enrolação.

O consumidor brasileiro aceita novidade. O que ele não aceita é pagar caro para descobrir sozinho como usar.

Modelos como BYD Dolphin Mini, GWM Ora 03, Renault Kwid E-Tech e Volvo EX30 ajudaram a normalizar o elétrico no imaginário do mercado. Só que normalizar desejo é uma coisa; normalizar rotina é outra.

Hoje, a maior pergunta já não é “quanto custa um elétrico?”. A pergunta virou “onde eu carrego sem complicar minha vida?”.

Enquanto a resposta depender demais do CEP, do prédio e do humor do carregador público, muita gente vai seguir olhando o elétrico com vontade — e fechando negócio mesmo no híbrido. O carro já chegou; falta saber quando a infraestrutura vai acompanhar esse apetite.

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A Redação do Verificar Auto é formada por jornalistas e especialistas do setor automotivo com mais de 10 anos de experiência em cobertura veicular. Nosso conteúdo é produzido com base em fontes oficiais — Detran, CONTRAN, SENATRAN, Denatran e Secretarias da Fazenda estaduais — além de dados da Tabela FIPE, relatórios da Fenabrave e informações diretas dos fabricantes. Cobrimos lançamentos, legislação, consulta veicular, financiamento e tudo que o motorista brasileiro precisa saber para tomar decisões informadas.